Domingo, 2 de Abril de 2006

Crónicas do Luxemburgo II

Para conhecimento do mais novos e honra e glória para toda a família, aqui vai uma história da minha ida à guerra:

 

Era eu um jovem aspirante, no quartel-general do Porto, quanto fui incumbido de representar o General na festa de Santa Catarina que, cada ano, abria com a deposição de um ramo de flores no nicho da Santa que, como sabem, existe na esquina das ruas de Santa Catarina e de Passos Manuel.

 

Nestas missões, a regra de ouro era chegar, ver onde pousava um jornalista, dizer-lhe que estávamos em representação de Sua Excelência o General Comandante da Região Militar e pisgarmo-nos o mais depressa possível.

Era certo que, no dia seguinte, o jornal relataria que tinha estado presente um representante de Sua Excelência o General. Missão cumprida…

 

Havia um problema: o do uniforme.

 

Era obrigatório o uniforme número 1, luxo que, entre os oficiais milicianos, só possuía o Tenente Rocha, nosso quase conterrâneo (da Sobreira).

Acontecia que o Tenente Rocha era homem para 1 metro e oitenta e muitos e tinha uma cabeça muito grande.

Por esta razão, na véspera das ocorrências, aprestávamo-nos a subir as bainhas do dólmen e das calças do Rocha, na medida do possível.

Um ou outro miliciano (não eu, que tenho também uma cabeça grande) necessitava de amparar o boné com rolhas incrustadas na pala.

 

Nesse tempo, os eléctricos passavam na Rua de Santa Catarina.

 

Estudei meticulosamente a situação e elaborei a seguinte táctica:

Meto-me no eléctrico, ele pára no cruzamento onde está o nicho da Santa, saio, descubro o plausível jornalista, digo ao que venho e ponho-me a mexer, a ponto de ainda recuperar o eléctrico ou apanhar o seguinte, mais adiante.

 

Mas o imprevisto aconteceu.

 

Era domingo de manhã, não havia trânsito e o eléctrico apenas abrandou no cruzamento, pelo que tive de saltar.

Porém, saltando, as calças deslizaram da precária cozedura que as sustentava e a única solução foi agarrar-me à barriga para elas não caírem.

 

O pior estava para vir.

 

Ainda não tinha acabado de saltar do eléctrico e já ouvia o toque de um cornetim. Não tive dúvidas que mais desgraças se aproximavam.

De facto, esperava-me um pelotão de bombeiros, em formatura.

O chefe perfilou-se, fez a continência e proclamou em voz de comando:

"Faça Vossa Senhoria o favor de passar revista!"

 

E foi o que eu fiz.

 

Com as mãos agarradas à barriga para as calças não caírem, o dólmen até aos joelhos, e muito enfiado, passei revista.

E não me lembrei mais da formalidade do jornalista. Desatei a fugir pela Rua Passos Manuel abaixo com a ideia de apanhar um táxi na Praça D. João I. O importante era abandonar rapidamente o teatro de operações…

 

Mas o meu tormento não acabaria aí.

 

Havia canalha a assistir à cerimónia.

Pela minha falta de atavio, pela farda ou pela estranheza da situação, os putos seguiram-me, pela rua abaixo, a marchar e a imitar o som do cornetim.

Ainda hoje não sei se atraídos pela componente militar ou simplesmente a gozar-me.

Eu continuava a correr e, enquanto com uma mão segurava as calças, com a outra acenava aos miúdos a significar que voltassem para trás que a festa era lá em cima…

 

 

Zé 

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publicado por Guri Guri às 01:17
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11 comentários:
De Primeiro a comentar!!!! a 2 de Abril de 2006 às 17:06
1.º!!! Fui o primeiro a comentar!!! Na nanana na!!!!
Ah, ganda Pai!!!

Nuno

congelado | discussão

De Paula a 2 de Abril de 2006 às 18:29
Tio Zé,

Obrigada por mais uma crónica divertidíssima. Se por acaso precisar de trajar novamente a farda nº 1, com medidas mais condizentes, é só dizer (o Major terá todo o gosto e contribuirá para o arejamento da dita cuja)...
Bjs.

Paula

Paula


De Tio Mário a 3 de Abril de 2006 às 14:55
Então o nosso Major nunca mais pica?

Estou à espera


De Major... na reserva!!! a 9 de Abril de 2006 às 00:06
... mais uma vez se verifica que é no Norte que está todo o power!!! notem a agilidade com que se foi ao Sul e se limpou mais um Campeonato!!! Dos "vermelhos", quaisquer que sejam, nem vale a pena falar... so far away they are...

... Se o Tio Zé precisar de alguma farda o melhor será pedir a qq um dos irmãos... que a minha nimguem me tira! só por cima do Pinto da Costa...

Força Tio Mario. Seria uma perda o fecho de Blog tão intimista e com tanta Cultura à mistura.... vejam só a beleza das poesias da senhora minha Sogra! Pena é que a filha não tenha herdado algumas das suas qualidades... Ainda hoje estou a pagar por isso!!!

E porque é que não se podem colocar "posts" directamente?... Julgo tal situação, limitadora do meu direito de expressão!

A todos um bem haja, em especial para aqueles que se aproximam da data do casamento, esse acto tão significativo e cheio de significado mas também carregado de significancia.

bjs


De Tio Mário a 9 de Abril de 2006 às 03:06
Meu caro General

Vou tentar ler o lado bom da sua ironia verrinosa.

1.Ó pá, dá cá mais uma. No Norte é que está todo o power!!! (povo, diria eu, carago)
2.Fico feliz por saber que deseja a continuação do nosso (sobretudo vosso) blog.
3.Para mágoa minha, não tenho farda que possa emprestar. E se tivesse, sabe-se lá o dia de amanhã!
4.A senhora sua Sogra, minha querida cunhada, com certeza que sabe, como eu, o homem bom que está por detrás da sua verrina.
5.Apesar da sua amada (minha querida Paulita) ser capaz até de cortar a cabeça aos primos, penso que a sua não corre perigo!...
6.Muito em breve vai poder colocar posts diretamente no blog? Nunca falou tão na hora.
7.Espero, como o Sérgio, que todos os casamentos estejam sempre carregados de “significância”, o que para mim é igual a ternura, companheirismo, lealdade, cumplicidade....onde eu já eu vou. Pára.

Sabe, Sérgio, uma última confidência. O humor é como uma lâmina afiada. Quando menos esperamos cortamo-nos a nós próprios e cortamos os outros, mesmo quando lhes queremos bem. Quantas vezes deitei para o caixote do lixo aquilo que antes me parecera bem, mas que, quando relido, era mais o dichote do que a graça que escondia. E quantas pessoas não magoei eu já na minha vida, quando minha única intenção era dizer-lhes que as amava ou que me dessem um pouco de atenção.

Um abraço do fundo do coração

Tio Mário


De Tio Fernando a 9 de Abril de 2006 às 12:53
Mário,

O Blog está em "ebloguição" com tantos comentários e contra-comentários.
Óptimo!!
Gostei muito deste teu comentário.
Está com humor mas cheio mensagens que dão para pensar.
Um abraço para ti e para o Sérgio.


De Paula a 9 de Abril de 2006 às 23:20
Olá Tio Mário,

Muito bem! Quem fala assim é que é psicólogo...!

E como amanhã é segunda feira, gostava de dedicar uma música a todos que, por ventura, possam estar a sentir a neura de Domingo à noite.

Tio Mário, aqui fica o pedido: "Muda de Vida" do António Variações, na versão dos Humanos.

Uma boa semana para todos!

Paula



Paula


De Tio Fernando a 3 de Abril de 2006 às 12:35
Esta divertida história nunca a tinha ouvido!!
Está muito bem contada. Mas dita de viva voz terá ainda melhor sabor.
Caro Zé, não escapas de a contar numa das nossas reuniões da grande família.
Continua a espremer a tua rica memória.

congelado

De Tia Guida a 8 de Abril de 2006 às 15:59
Querido Zé
Que falta nos faziam as tuas crónicas!
Nunca pensei que tu andasses tão atrapalhado lá pela baixa...E o tecido das calças não era de escorregar senão as coisas ficavam mais feias! Então os putos não sei o que diriam!!!
Obrigada, tu és o máximo!!!!!!!!

congelado

De Guri Guri a 8 de Abril de 2006 às 23:19
Ou mandas mais umas crónicas ou o blog entra outra vez em bancarrota.
Se é uma questão de honorários, é só dizeres que os primos pagam.
Mayday
SOS

congelado

De Major a 9 de Abril de 2006 às 00:14
Só agora ouvi, lida pela minha excelcia mulher, o sucedido no dia de St. Catarina... muito gira. Em especial gostei da parte de ter a canalha a servir de guarda de honra... já não há tempos assim.. agora os putos tao a teklar mtids em casa!!!

congelado

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