Segunda-feira, 2 de Outubro de 2006

A Travessia da Serra

Ainda com imagens frescas na minha memória sobre a última Travessia da Serra realizada no dia 23 de Setembro de 2006, decidi contar para os Primos OnLine a história desta “façanha” anual.

Mas, afinal, o que é a “Travessia da Serra” ? Todos os anos logo a seguir às férias um grupo de amigos fazem uma caminhada entre o centro da freguesia de Lagares - Penafiel e o centro da freguesia de Melres - Gondomar através da serra que separa as duas freguesias, popularmente chamada Serra das Cabrias e que pertence à Serra (ou Alto) da Pena Branca, segundo a Carta Militar de Portugal.

Trata-se de uma distância de cerca de 12 km feita por caminhos que, inicialmente, eram apenas trilhas de passagem a pé, muito íngremes e irregulares, usadas pelos mineiros que das freguesias de Lagares e Capela trabalhavam nas minas de carvão do Pejão. freguesia de Pedorido - Castelo de Paiva . A dificuldade deste percurso e as paisagens que nele se podem admirar torna-o muito motivador para todos os que gostam de conviver com a natureza, num ambiente de boa amizade e camaradagem. Porém outros motivos concorrem para que esta “Travessia da Serra” seja gostosamente esperada por um cada vez maior grupo de amigos.

Chegados a Melres, começa a segunda parte do desafio, à volta da mesa, onde todos, em alegre cavaqueira, se deliciam com os pitéus que cada um apresenta, refazendo assim as energias gastas na caminhada. Para muitos representa o encontro anual de grandes amizades onde se põe a “escrita” em dia e se recordam as peripécias e tropelias do tempo de infância e juventude.

Mas como terá começado esta tradição que já vai na terceira geração?

Teremos que recuar à década de 1940 e ao casal Aníbal e Maria Idalina, residente no lugar da Igreja - Lagares, pais do autor desta crónica, ele natural de Lagares e ela natural do Porto, mas residente deste muito pequena em Melres, onde possuía uma casa e uma pequena quinta e muitas amizades. Desde muito cedo, após o casamento da filha, veio viver com este casal a única avó que conheci, Maria José, ficando a sua casa em Melres fechada e a Quinta da Vergadas a ser trabalhada pelos caseiros Snr. António Cruz e Snra. Rosa.

Entretanto foram nascendo os filhos do casal e na altura do verão a minha avó e muitas vezes também a minha mãe, iam passar algum tempo à sua casa de Melres, levando consigo a prole, desde os que já podiam caminhar até àqueles que ainda não andavam ou não aguentavam toda a caminhada.

Nessa altura os meios de transporte eram escassos (anos da e pós II Guerra Mundial) e a ligação por estrada entre Lagares e Melres era muito longa e quase intransitável nalguns pontos. Restava, pois, a solução de ir de Lagares a Melres pelo caminho calcorreado diariamente mineiros, mas que só poucas pessoas conheciam bem. Os inexperientes corriam o risco de se perderem na serra.

Era uma operação logística complexa:

Por bilhete postal ou aproveitando o vaivém dos mineiros os meus pais enviavam um recado aos caseiros pedindo o seu apoio para esta deslocação familiar. Pelo mesmo meio lá vinha a resposta.

Na data marcada os caseiros saíam de madrugada de Melres e, vindo pela serra, chegavam a Lagares de manhã cedo para que o calor não fosse demasiado durante a viagem para Melres. Traziam em cestos alguns mimos da Quinta das Vergadas. Depois de os caseiros “matarem o bicho” com um bom naco de broa e uma isca de bacalhau acompanhados por um copito, estávamos todos prontos para iniciar a ida para Melres há muito esperada pelos mais crescidos, em especial pelo fascínio de ir até ao areio ver o rio e nele molhar os pés. Os meus irmãos mais pequenos lá iniciavam a caminhada a pé, mas ao fim de pouco tempo tinham que ser transportados às “cavalitas” ou então dentro dos cestos que os caseiros tinham trazido…

O ponto culminante do esforço era a subida da Serra da Cabrias, mas chegados lá acima sentíamo-nos orgulhosos do feito e entusiasmados coma paisagem. Em frente às Minas das Banjas, já na descida para o Chão-que-tropia, havia uma gruta onde fazíamos uma paragem para descansar um pouco e comer uma pequena merenda. O resto da caminhada fazia-se sem grande esforço e a recompensa chegava quando do alto das fragas de Vilarinho se avistava pela primeira vez o Rio Douro, curvando vagarosamente no lugar de Santiago.

Os dias de férias em Melres tinham um sabor especial: o rio com o seu grande areal(ou areio, como lhe chamavam), o entrar no barco que fazia a travessia de Melres para a Lomba, a vista do rio da janelas da casa de Melres com os barcos rabelos e barcos rabões (usados para o transporte do carvão das minas do Pejão) de velas enfunadas aparecendo na curva de Santiago, as juntas de bois pisando o areio e “alando” esses mesmos barcos quando não havia vento e rio estava baixo, as pessoas amigas da nossa mãe e avó que nos mimavam, o brincar com os filhos dos caseiros…

Acabadas as férias tínhamos a viagem de regresso feita em moldes semelhantes mas menos custosa pois a Serra das Cabrias era a descer…

Não admira que tudo isto tenha ficado no nosso imaginário de crianças a “puxar” para aquelas recordações.

Tive a sorte de vir a usufruir o reviver de tudo isto ao casar com a tia Guida nascida e criada em Melres, mesmo à berinha do Douro.

Foi, porém, o Tio Zé que deu os primeiros passos naquilo que viria a transformar-se na tradição da Travessia da Serra, recordando as idas a Melres, pela serra, da nossa infância.

Na década de 1970 e, sobretudo, depois do falecimento dos nossos pais (1978), o tio Zé juntamente com o Padre José Coelho Barbosa, grande conhecedor de todos os lugares e caminhos desta zona, e, mais tarde, também com o Padre Leal começaram a fazer caminhadas, algumas das quais até Melres, pela Serra das Cabrias. As recordações da infância começaram a despertar interesse por este último circuito entre os irmãos e outros amigos tendo-se realizado vários vezes durante a década de 1980, aproveitando os dias de férias que o Padre Barbosa passava em Lagares quando o seu trabalho de missionário o permitia.

A partir do início da década de 1990 o número de participantes foi crescendo e passou a tradição a cumprir-se anualmente, chegando a ser de cerca de 40 pessoas o grupo que fazia a Travessia da Serra. A este grupo juntavam-se mais cerca de 20 pessoas que por razões diversas não podiam fazer a caminhada pela serra mas não dispensavam o convívio que se vivia durante a tarde em Melres.

A segunda geração (nossos filhos e sobrinhos - os Primos Online) alinhou nesta tradição e a terceira geração está também a começar a acompanhar a “ferrugem” dos seus tios-avós, nesta aventura. 

 

Para a história fica o quadro com as datas em que se realizou a Travessia desde que o facto começou a ficar registado:

 

Ano

Data

Ano

Data

Ano

Data

1993

12 Junho

1998

Não se fez

2003

27 Setembro

1994

01 Outubro

1999

09 Outubro

2004

18 Setembro

1995

07 Outubro

2000

16 Setembro

2005

08 Outubro

1996

05 Outubro

2001

06 Outubro

2006

23 Setembro

1997

04 Outubro

2002

05 Outubro

 

 

                     

O texto já vai longo e haveria ainda alguns episódios interessantes a relatar. mas vou deixar isso para que os que neles participaram o possam fazer como comentários a esta crónica.

Termino referindo um desses episódios que deu origem ao logótipo do Clube dos Amigos da Travessia da Serra (CATS) há alguns anos informalmente criado.

Com o passar dos anos a geografia da serra e a sua paisagem foi-se modificando, pela pouca utilização das suas trilhas e pelos incêndios florestais que se iam sucedendo. Em cada travessia, era certo que em determinada altura do percurso surgia a dúvida sobre o caminho a seguir e, então, as mais diversas opiniões apareciam, nem sempre se chegando a um consenso, o que levava algumas vezes à fragmentação do grupo e às inevitáveis discussões e estratégias para a sua reunificação.

 

Tio Fernando
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publicado por Primos Online às 19:15
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