Terça-feira, 18 de Abril de 2006

Crónicas do Luxemburgo III

Nos bons velhos tempos, quando não havia televisão e a cidade ficava nos confins do mundo, as noites de Inverno eram aproveitadas para encenar histórias que as gerações transmitiam por tradição oral.

Os assuntos normalmente versados, numa comunidade de crentes pouco instruída, eram a criação do mundo, o bem e o mal, o pecado e a expiação.

Destes temas, o que mais aliciava as plateias, pelo mistério e pelo limiar tecnológico, era o Inferno.

A visão do Inferno dramatizava-se por meio de um fosso criado por baixo do palco, de onde eram catapultados os diabos através de uma alavanca constituída por uma trave apoiada num tronco. O fogo, esse, era conseguido com resina moída, soprada através de um sistema altamente "sofisticado". O latoeiro fabricava um tubo que, na ponta, curvava para cima. No topo, acoplava‑se uma espécie de raro de regador que, coberto de resina, era colocado a centímetros de uma vela acesa. Na altura própria, alguém soprava no tubo, a resina libertava-se, atravessava o lume e transformava-se em chamas.

À medida em que o "Rei dos Diabos" chamava, os diabos emergiam no palco, envoltos em fogo. Não me recordo já do nome de todos. Como em muitas seriações bíblicas, sei que eram sete.

O "Rei dos Diabos" berrava: Lúcifer, Satanás, Sataniel e por aí fora… Cachapuz era o último e mais pequeno.

Quando os diabos saltavam, havia um diálogo que aliviava a tensão e fazia rir a assistência.

"Satanás!", bradava o "Rei dos diabos". "Aqui vou eu de cabeça para a frente e rabo para trás!", retorquia o dito Satanás.

Cachapuz !", chamava o "Rei dos diabos". "Fiquei para trás para apagar a luz!", respondia o último dos diabos.

          A miudagem passava do pânico ao fascínio e, chegada a casa, queria imitar.

Dos cinco irmãos, reservámos para os três varões esta perigosa aventura escatológica.

O engenhocas era o Nando . Encarregou-se naturalmente de conceber os efeitos cénicos. Eu aceitei o papel de "Rei dos Diabos", pela importância e pouco trabalho. O Nando atribuiu-se também o papel de diabo saltante. O Marito , nos seus inocentes quatro ou cinco anos, constituía o público.

Faltava o local. Não foi difícil.

Numa espécie de sobreloja, existia a retrete. Reproduzia o que era comum nas famílias com algumas possibilidades: uma bancada de madeira, com um buraco e uma tampa, dando directamente sobre o quinteiro que ficava um ou dois metros abaixo. Os excrementos eram periodicamente misturados com mato para produzirem estrume.

Arranjámos e moemos a resina, improvisámos o tubo e o raro, acendemos a vela e preparámo-nos.

O Nando estava predestinado. Ainda pequeno, passava perfeitamente no buraco da retrete. Com o corpo e as pernas suspensos, tinha que apoiar os braços nos lados da bancada para se aguentar.

E o espectáculo começou.

Gritava eu:

Lucifer !".

E o Lucifer ", que o Nando personificava, soerguia-se, apoiado nos braços, e repetia Lucifer !", enquanto eu soprava resina para a vela e as chamas se levantavam terrificantes.

"Satanás!". A cena repetia-se…

Só não previmos que mesmo os diabos (e, sobretudo, os diabos) estão sujeitos às leis da natureza.

O Nando resistiu à primeira experiência, mas, na segunda, estava ainda o "Rei dos Diabos" a chamar pelo terceiro ou quarto diabo, quando os braços se negaram ao esforço.

Foi o desastre.

Com as pernas a balouçar e a roçar as profundas do "inferno", nem descia nem subia. E quanto mais tentava, mais descaia e tornava a situação irreversível.

Tementes das consequências e frustrados por não conseguirmos afinar a peça, chamámos o nosso pai para "desatascar" (é o termo) o actor.

Rezam as lendas que o Nando saiu da situação em mísero estado.

Foi desinfectado com uma mistura de cinza, lexívia e água quente, geralmente utilizada para as barrelas.

Depois, lavado com sabão cor de rosa.

Apesar disso, durante algum tempo, à sua aproximação, os iniciados no acontecimento cochichavam entre si, cúmplices de uma revelação que contrariava a sabedoria popular.

Afinal, o inferno não cheirava a enxofre mas a m...

 

 Tio Zé

 

"Espaço cénico" típico da época

Foto da responsabilidade do Guri Guri

 

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publicado por Guri Guri às 00:35
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5 comentários:
De Nuno a 18 de Abril de 2006 às 11:16
Primeiro a chegar!!!
Só não percebo como é que estão três sanitas e só um é que lá caiu. Haverá alguém que não quer assumir que também nela caiu??

Nuno

congelado | discussão

De Tio Mário a 18 de Abril de 2006 às 12:43
À época, havia "espaços cénicos" de um, dois e até três "alçapões" e, por vezes mesmo, um outro, de menor altura e dimensões, destinado aos miudos. Ao que diz o cronista, o da história tinha apenas um alçapão. Pelo que a tua dúvida fica desfeita. Mas fica atento a novos posts....


De Tio Fernando a 18 de Abril de 2006 às 22:07
Caro Zé,

A história está muito bem contada. Porém, sinto necessidade de dizer "alto e bom som" que depois daquela limpeza em profundidade e passados todos estes anos já não tenho nada nem de "Lucifer" nem do cheiro do seu inferno...ou será que ainda têm dúvidas?
Talvez tenha sido aquele projecto de engenhoca que me levou a tirar um curso de engenharia para aprender a criar sempre um bom (e limpo) ponto de apoio...

congelado | discussão

De Anónimo a 19 de Abril de 2006 às 21:57
3 buracos significam que os três varões desceram ou podiam ter descido aos infernos.
Ze


De Paula a 21 de Abril de 2006 às 14:04
Ora cá temos mais uma situação de discriminação feminina: deviam existir 5 buracos. De certeza que a Tia Zinha e a Tátá ansiavam também por uma descida aos infernos.

Bjs.


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