Terça-feira, 2 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo V

Outro suave milagre

                                  

Padre Zé celebrava invariavelmente muito cedo.

Durante a semana, a missa era às seis da manhã. Noite fechada, no Inverno.

A frequência não era grande: uma a duas dúzias de fiéis. Ocupavam os lugares do costume e respeitavam uma geografia irreversível: à frente os homens, no meio as mulheres e as crianças e, no coro outra vez os homens.

Excepcionalmente, havia um gasómetro. No altar-mor, ardiam duas velas, a que eventualmente se juntavam outras, colocadas por devotos em altar de santo a quem tinham pedido intercessão ou deviam favor. Uma ou outra candeia a petróleo que tinha ajudado a desvendar os trilhos que conduziam à igreja mantinha-se acesa.

Mas o ambiente era de semi-escuridão.

O vento entrava pelas frestas das portas e fazia dançar as chamas dos gasómetros e das velas, produzindo efeitos estranhos nas paredes da igreja, com silhuetas e movimentos de pessoas a recortarem-se em espaços de luz e de sombra.

O Vaticano II ainda estava distante.

O sacerdote celebrava em latim, de costas para a assistência.

Por vezes, quem ajudava à missa era o Faustino, rapaz de uns nove ou dez anos, tão ladino quanto gago. Tinha decorado as respostas mas corrompia o latim, comendo metade das palavras e eliminando outras, com o louvável propósito de terminar o que lhe competia a tempo de não perturbar o bom andamento da missa. No fim de cada resposta, pontuava a palavra final e inclinava levemente a cabeça, o que o celebrante interpretava como "deixa" para prosseguir.

Aparentemente indiferente ao que se passava no altar-mor, a Senhora Anastácia, decana das catequistas, rezava e entoava ininterruptamente toda a sorte de melopeias. Terços, ladainhas, jaculatórias ou simplesmente passagens de livros de aparência suja e corroída pelo tempo, tudo lhe servia. Segundo a liturgia do dia (real ou imaginada), as leituras podiam ir da paixão de Cristo à vida prodigiosa de uma virgem e mártir.

Entre o celebrante e a Senhora Anastácia tinha-se estabelecido uma espécie de coexistência que só se desfazia nos momentos cruciais da missa, em que as rezas e as leituras eram suspensas.

Nas primeiras sextas-feiras era diferente.

Havia mais gente, as crianças que tinham feito a primeira comunhão compareciam e as cantoras aprimoravam-se com duas ou três intervenções em latim (O salutaris hostia, Ave verum e Tantum ergo) e, depois, cânticos em português, a duas vozes e ritmo arrastado, o que convidava ao recolhimento, quando não embalava no sono um ou outro assistente despertado antes do cantar do galo.

Naquele dia de semana, a igreja não se enchera mas, por uma qualquer razão, encontrava-se mais composta.

O tempo estava ventoso e húmido, o que levava a que as portas rangessem e batessem.

Normalmente, Padre Zé distribuía a comunhão terminada a missa. Se os participantes eram em grande número, o sacerdote ia avançando, pelo centro, até ao fundo da igreja. Quem queria comungar aproximava-se.

Tinha o celebrante chegado ao transepto, acompanhado do ajudante, quando sentiu que havia alguma agitação entre os fiéis.

As mulheres chegavam-se ao ouvido uma das outras e segredavam qualquer coisa que lhes transtornava visivelmente o espírito e alterava o fácies. A mensagem parecia ir alastrando, pois os homens começavam a sobressaltar-se, como logo resultava do seu olhar inquisidor e convulsionado, do cofiar do bigode e da passagem da mão pela cabeça.

Alheado e sereno, Padre Zé continuava a distribuir a comunhão.

Aquele bulício não lhe era totalmente estranho. O telhado da igreja estava em petição de miséria e, quando chovia, os fiéis resguardavam-se dos pingos, mudando atabalhoadamente de posição ou de local e criando alguma confusão. O ruído de pessoas a recuperarem os tamancos, a afastarem os "mochos" em que se sentavam e a sussurrarem lamentos e explicações era-lhe familiar.

Mas não tardou a ouvir-se um restolho desconhecido, provocado por um magote de pessoas que abandonava desabridamente a celebração.

E, a seguir, veio o alarido.

"Nosso Senhor nos acuda!", clamava a Senhora Cremilde, guardando a compostura possível.

"Jesus, Maria e José, vinde em nosso auxílio!", bradava a Senhora Deolinda, com cabelos desgrenhados e os braços erguidos para o céu.

Começavam a rarear os comungantes quando o paroxismo sobreveio.

O Senhor Valentim, homem de forte compleição mas geralmente tido por medroso, gritou, do coro, a plenos pulmões:

"Salve-se quem puder!".

E os poucos que sobravam ensaiaram a debandada em choros e gritos.

Só então Padre Zé se deu conta de que qualquer coisa de verdadeiramente anormal estava a acontecer. Virou-se para o ajudante com a intenção de lhe pedir para ir ver o que se passava. Mas este acabava de largar a opa e de saltar como um gamo por cima de um banco que lhe impedia o acesso à saída.

Ficou Padre Zé com a píxide nas mãos, sozinho, à espera que a hecatombe se declarasse ou o Espírito Santo o iluminasse de vez.

E foi o que aconteceu.

A porta do guarda-vento entreabriu-se e a penumbra deixou adivinhar a figura imponente de Manel Tirano.

Manel Tirano era da Capela.

Homem corpulento, com farta cabeleira e mãos enormes, desgastara-se no trabalho das minas. A fome, as provações e o destino tinham-no conduzido à loucura. Alarmava a vizinhança, de noite, com berros e impropérios. Era violento com quem o invectivava. E, atingido por uma epilepsia progressiva, tinha ataques, em que espumava, vociferava alusões religiosas e lançava esgares que aterrorizavam os circunstantes.

Dizia-se que eram necessários seis homens para o segurar.

O povo temia-o e murmurava à boca pequena que estava possuído pelo demónio.

O louco avançou uns passos, depôs a boina e o cajado e postou‑se a poucos metros do padre, com um olhar inexpressivo e longínquo.

Padre Zé fixou-o nos olhos e reparou que ele reagia, esboçando um sorriso.

"O que vens fazer à igreja, Manuel?" – perguntou o sacerdote.

"Quero comungar, Senhor Abade!" – replicou o louco.

Padre Zé acedeu com naturalidade:

"Vem, que eu dou-te a comunhão".

O pobre homem adiantou-se, tomou respeitosamente a hóstia e Padre Zé lembrou, com voz compreensiva e doce:

"Não deixes de dar graças ao Senhor!".

Ao voltear para entrar na sacristia, o sacerdote lançou um último olhar para o fundo da igreja e observou que Manel Tirano, ajoelhado, orava, com a maior unção, e batia com a mão no peito.

No adro, não restava vivalma.

Os mais afoitos ou curiosos tinham-se agachado por detrás do muro do passal, ansiando serem testemunhas únicas e gloriosas de uma grande desgraça.

Ficaram paralisados ao verem Manel Tirano sair da igreja.

Quando, porém, o louco se aproximou, notaram que ele não estava agitado. Ia a falar sozinho, como fazia habitualmente.

Enclausurado no seu mundo, Manuel Tirano perscrutava a linha do horizonte, continuava a rezar e prosseguia o seu caminho com a tranquilidade dos justos.

                    

Tio Zé

     

[1] A história baseia-se em factos que o Padre José Rodrigues Moreira, o querido Padre Zé de quem falarei noutras crónicas, me transmitiu. Alterei os nomes dos outros personagens.
        
          

música: Monks and Choirs of Kiev - Chants of the Russian Orthodox
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publicado por Guri Guri às 18:00
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6 comentários:
De Tio Mário a 2 de Maio de 2006 às 18:26


Até agora não consegui as fotos. Mesmo assim decidi publicar a tua crónica.

Os meus parabéns.

Continua.


congelado | discussão

De Paula a 3 de Maio de 2006 às 23:26
Parabéns, Tio Zé!
Cada vez mais apurado...


De Anónimo a 4 de Maio de 2006 às 18:11
Paulinha:
Obrigado pelo mimo.
Mas este blog não é de marretas. Tenho que limitar as minhas intervenções. Espero que, conjuntamente com todos os da segunda geração, publiques coisas que expliquem aos mais miúdos de que árvores procedem.
Um beijo.
Tio Zé


De Tio Fernando a 4 de Maio de 2006 às 14:39
Caro Zé,

Mais uma crónica escrita com mestria!
O facto que relata vale bem a pena que fique para a história pelo engraçado da situação mas, sobretudo, pela humanidade que a cena encerra.
Um grande abraço
Nando

congelado | discussão

De Anónimo a 4 de Maio de 2006 às 18:03
Caro Nando:
Obrigado pelas palavras amáveis. Fico sempre sensibilizado pelas tuas reacções.
A verdade é que só sei escrever histórias. Depois de um dia a ler e a escrever sentenças, uma história leve e sem códigos é o que me resta.
Agora tu, podes animar o blog de outra maneira. Conheces coisas reais de Lagares e do mundo e estás mais por dentro dos assuntos de família. Um dia destes, falarei de outras pessoas e, evidentemente, embora com um nó na garganta, da Vóvó. Lembras-te do que ela dizia de Melres e da fortuna que os herdeiros, nesse tempo legítimos, do avó Anastácio malbarataram? Lembro-me de, quando exercia funções no Porto, ter desencantado o inventário e ter concluído que o que a Vóvó narrava a este propósito não era fábula. Tens ainda os papéis?
Depois, porque não escreves sobre a árvore genealógica da família? Ou sobre os feitos verdadeiramente singulares e cheios de humanidade das tias de Melres?
E, quanto à Guida, poeta e articulista conhecida, não lhe faltam temas nem jeito.
Toca a escrever porque o espaço que já ocupei no blog trouxe-me o complexo do monopólio e da monotonia.
Um abraço


De Tia Guida a 5 de Maio de 2006 às 12:51
Querido Zé
Fiquei sensibilizada com o teu comentário dirigido ao Fernando e onde me "chamas à pedra". Realmente eu já poderia ter escrito mais, mas perante as tuas crónicas, fico sem palavras! Obrigada pela força, e continua a contar histórias, porque nos levam às raízes como se fosse um sonho. Louvado seja Deus pelos teus dons!
Qualquer dia vou publicar algo que tenho sobre Melres, porque Melres, nos é comum. Aí mergulham também as vossas raízes.
O Duchinho tem sido na verdade uma revelação. É tempo de desamarrar o saco e deixar sair tanta riqueza escondida.
Força!!!

Um beijo doce e amigo
Guida


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