Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo VI

Retrato de um líder
 
 
Zé Galinha era um activista.
Prestável, comunicativo, estava em todos os acontecimentos que mobilizavam a freguesia.
Se um acidentado necessitava de uma prótese, a vaca de um pobre morria de parto ou um desgraçado carecia de funeral, Zé Galinha encontrava-se incondicionalmente à frente do peditório.
Tinha herdado do pai, Manel Galinha,[1] o ofício: primeiramente, tangedor de gado, depois, condutor das malas do correio.
Era gago profundo e filósofo assumido.
Numa certa altura (estava em cena "A rosa do adro"), o grupo de teatro esteve em risco de dissolução por desavenças sobre a gestão dos dinheiros.
Zé Galinha tomou a direcção nas suas mãos e a imagem da administração alterou-se radicalmente.
A cada espectáculo passou a seguir-se uma ceia, por vezes alargada a familiares e amigos: caldo verde, broa e bacalhau, à discrição, tudo regado com tinto da quinta de D. Francisco.
Nem no Natal!...
Quando, algum tempo depois, um dos actores mais coca-bichinhos (que os há sempre) interpelou o "director" sobre os "apuros" da bilheteira, Zé Galinha, de dedo em riste para a barriga proeminente do recalcitrante, disparou:
"As ©ontas (e)stão (b)em (v)ísíveis…"
Zé Galinha não era dado a humores depressivos.
Uma manhã, porém, acordou taciturno e mudo.
O facto não escapou à Tia Augusta.
"Andas doente ou morreu-te alguém?" –  indagou.
Zé Galinha respondeu, com ar abatido:
"Es(t)ou (d)esen(g)anado (p)ela (m)e(d)icina…".
Propagou-se rapidamente, por tudo quando era sítio, que Zé Galinha padecia de "mal ruim".
Aconteceu que, no dia seguinte, a jovialidade e a boa disposição pareciam ter regressado, o que intrigou a vizinhança.
Abordado cautelosamente sobre o seu real estado de saúde, Zé Galinha explicou:
"(M)al ®uim, eu? Eu (s)ó (d)isse (q)ue es(t)ava (d)esen(g)anado (p)ela (m)edicina. (V)oce(m)ecê (s)abe (d)e (a)l(g)uém (q)ue (t)enha (f)icado ©á (p)ara a (s)emente, (m)ulher? O (n)osso (l)ugar é a(l)i!…(apontava para o cemitério). En(t)ão, (t)odos es(t)amos (d)esen(g)anados (p)ela (m)edicina, (n)ão é?!…"
Já entrado na idade, a asma ia-se agravando e, mês sim mês não, era levado de urgência ao hospital.
Comentava, a este propósito:
"(H)á (g)ente (q)ue se (a)rrepia ©om o (d)obrar a (d)e(f)unto. A (m)im n()ão (me) (f)az (d)i(f)erença (n)enhu(m)a. (S)ei (q)ue não é (p)or (m)inha (c)ausa!... O (q)ue me a©agaça é a (s)irene dos (b)ombeiros (q)ue já al(g)u(m)as (v)ezes me (v)ieram (b)uscar!…".
Nos anos que se seguiram à segunda grande guerra, Lagares acusava sinais desse tempo de provação. O povo saia muito lentamente da miséria extrema. A energia eléctrica ainda vinha a caminho embora já houvesse um ou outro rádio a pilhas. Os relatos dos jogos de futebol eram das coisas mais excitantes que chegavam de fora.
Não tardou que o futebol passasse a motivar o dia a dia dos mais novos.
Adriano pertencia à geração de Zé Galinha. Trabalhador e afável, era fisicamente deficiente. Usava duas grandes muletas e deslocava-se com dificuldade. Aos domingos, finda a missa do dia, formava-se uma tertúlia à roda da sua banca de sapateiro e falava-se de tudo. Era também à sua volta que se congraçava o fervor pelo Sporting.
Disputaram-se, nessa altura, partidas renhidíssimas.
Nas tardes de domingo, as pessoas juntavam-se nas Portelas, cruzamento da estrada nacional, o que significava, naquele tempo, porta do mundo.
Os primeiros treinos fizeram-se ali, em plena estrada.
Duas pedras a servir de baliza e um olho nos troços que ligavam, em cada sentido, à ponte de Lagares e a Escariz; não tanto pelo trânsito, que era muito reduzido, mas porque podia aparecer a Guarda ou o cantoneiro que, à sorrelfa, confiscariam a bola.
Adriano jogava, apesar da sua deficiência. Era guarda-redes e ninguém ousava pôr em causa a sua eficácia. Se um adversário se aproximava, Adriano lançava-se…melhor, largava as muletas e caía desamparado. Umas vezes agarrava a bola com as mãos, outras salvava a baliza porque bola e adversário tropeçavam nele ou nas muletas.
Mais tarde, o futebol "institucionalizou-se" sob o mecenato do Senhor Soares.
Fidelizou-se a ligação ao Sporting e improvisou-se o "estádio", no maninho da Igreja.
O "campo da bola" tinha dimensões muito abaixo das mínimas e era inacessível. Situava-se no cimo de um monte escarpado e liso pois a necessidade não poupava árvore ou arbusto que pudesse abastecer a lareira.
Os jogos prolongavam-se pela tarde fora. Um pontapé mais potente desferido para o lado do ribeiro fazia a bola saltitar até ao vale e, como normalmente só havia uma, eram necessários uns bons vinte minutos para a recuperar.
Num ou noutro jogo mais importante, contratava-se uma estrela.
Armando, ex-guarda‑redes do Salgueiros, era idolatrado. Já perto dos quarenta, equipado à maneira (camisola e calções cerzidos e desbotados, reminiscentes da glória de outros tempos) e cabelo untado de brilhantina, Armando não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Salvo nos casos em que lhe faltava tempo de reacção, selava cada defesa com uma cambalhota.
O povo desfazia-se em palmas, mesmo quando a bola tinha atravessado a linha de golo, o que era mais que frequente.
O club entrou, numa determinada época, em declínio e Zé Galinha, porque ninguém mais avançou, aceitou a liderança.
Bem depressa confirmou a sua têmpera.
Num dos primeiros jogos, os da Sobreira tinham arranjando um árbitro que saiu melhor que a encomenda. No intervalo, o jogo já se saldava por três a zero contra o Sporting Club de Lagares.
Zé Galinha não tolerou a infâmia. Deixou recomeçar o jogo para que fosse publicamente reconhecida a sua autoridade e invadiu o rectângulo, com esta ordem de dispersão para os de Lagares:
"©a(r)ago, p'ó ©a(r)ago, (H)omens em ©am(p)o, ©asa!".
E o jogo terminou imediatamente.
Desde então, enquanto não se lhe mostraram mais transparentes os mecanismos da arbitragem, Zé Galinha punha uma condição para que a equipa alinhasse: ser ele próprio o árbitro.
Mais tarde, os horizontes desportivos alargaram-se e Zé Galinha tornou-se sócio indefectível do Penafiel.
Assistia a todos os jogos, acompanhava a equipa e passava a semana seguinte a relatar os fait-divers e a jurar a sua fé inabalável nos próximos lances.
Filosofava para os mais próximos:
"Se (m)e (s)air a (l)otaria, o (q)ue es(p)ero, ©arago, (r)e(p)arto a (m)assa: uma (p)arte (p)ara a (S)anta ©asa da (M)isericórdia, outra (p)arte (p)ara a ©onstrução do es(t)ádio do (P)ena(f)iel e outra (p)ara eu (f)azer uma ©asinha em (f)rente do es(t)ádio do (P)ena(f)iel".
Ficou-lhe gravado na memória aquele jogo Felgueiras/Penafiel.
Não fora só a derrota. Fora a ladroagem do árbitro e a má criação dos de Felgueiras. Estivera a chegar a vias de facto com um adepto do Felgueiras que insultara Penafiel, aludindo a uma velha alegoria das terras de Arrifana:
"Na vossa terra, só há albardas e burros, ó palerma!".
A partir daí, estava o campeonato ainda no início, Zé Galinha já só pensava na segunda volta.
E o dia chegou.
Chovia em Penafiel e o jogo estava a correr menos mal.
Mas Zé Galinha não tinha olhos para o jogo. Ia e vinha e circundava o campo, de frente para a assistência, a ver se descobria o indivíduo que o agravara em Felgueiras.
Já desanimava quando, enfim, a sorte lhe sorriu.
"(F)altavam ©inco (m)inutos (p)ara o (f)inal da (p)ar(t)ida, ©arago! Não é (q)ue o sa©ana se (t)inha a(n)i(nha)ado atrás da (b)aliza do (P)enafiel, com o (g)uarda‑chuva a (t)apar‑lhe as (f)uças?! (C)omo é (q)ue eu (p)odia (a)divinhar, (p)orra?!".
E Zé Galinha acrescentava:
"Eu (s)ou um (h)omem de (P)ena(f)iel, ©arago! Não (p)erdi a ©alma (n)em a (e)du©ação! (P)er(g)un(t)ei: "Ò (a)migo, ©omo es(t)á o ®esul(t)ado?"..."
E antes que o outro tivesse tempo de responder ou sequer de reconhecer o recém-chegado, Zé Galinha sacou-lhe o guarda-chuva e desfê-lo na cabeça do meliante.
"Em(p)atámos, (m)as, (n)essa (t)arde, (d)ei (u)ma (g)rande (a)legria ao (P)ena(f)iel, (c)arago!" - concluía Zé Galinha.
 
Tio Zé
   

[1] Outro tipo inesquecível que retratarei mais tarde.
música: Mammas & the Pappas: California dreamin'; Monday, monday
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publicado por Guri Guri às 22:00
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3 comentários:
De Tio Fernando a 6 de Maio de 2006 às 12:51
Caro Zé,

Fiquei preso ao écran do princípio ao fim da tua crónica. Ela transportou-me com com um realismo profundo para o Lagares da nossa infância e adolescencia. Admiro a tua memória e a capacidade de óptimo cronista com que fazes o "read out" da mesma. Obrigado por estes momentos de saudade gostosa.
Nando

congelado

De Nuno a 9 de Maio de 2006 às 22:08
Só para dizer que apesar do diálogo entre irmãos, os sobrinhos continuam atentos ao blog. Pena é que a vida complicada da maioria não permita comentar mais.

Nuno

congelado | discussão

De Paula a 10 de Maio de 2006 às 12:03
Qurido primo,

Era mesmo este comentário que queria deixar no blog, há algum tempo. Faço minhas as tuas palavras
Há alturas em que, por mais que se tente, não há tempo para nada...
Bjs para todos.

Paula


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