Sábado, 6 de Maio de 2006

Foguetes bioquímicos

Não, não é aquilo em que, porventura, está a pensar…

No tempo da nossa mocidade, em Lagares, entre as festas populares que lá se realizavam, sobressaía a festa da Senhora da Lapa, no dia 8 de Setembro, qualquer que fosse o dia da semana. Dia feriado na aldeia. Era esperada com grande ansiedade, mas ao mesmo tempo com alguma tristeza pelos criados e jornaleiros dos lavradores, pois nesse dia terminava o direito ao descanso da sesta.

Mais tarde, por razões de disponibilidade das “pessoas que trabalhavam no Porto” esta festa passou a celebrar-se no dia 8 de Setembro ou no domingo seguinte, caso esse dia fosse um dia de semana.

    Para a rapaziada da minha idade, a coisa que mais nos impressionava era a preparação e o acendimento dos morteiros (tubos grossos de ferro, tapados numa das extremidades, cheios com pólvora, comprimida com “pedra do monte” a golpes de marreta), que explodiam no adro da Capela da Lapa durante toda a semana anterior à festa, ao meio-dia e ao fim da tarde, para anunciar as grandes festividades.

Mas havia ainda outro acontecimento que nos deixava maravilhados! O lançamento dos foguetes no dia da festa. Havia especialmente três momentos em que a grande perícia do fogueteiro, Senhor Jusberto, encarrapitado no beiral duma das capelas dos “passos” do Senhor, era posta à prova e mais apreciada: Na Missa, durante a Consagração, no final da Procissão e à noite, na sessão de fogo de artifício (foguetes de lágrimas, como lhe chamavam na aldeia).

Com todos estes estímulos não era de admirar que eu e os meus irmãos, nos dias seguintes, quiséssemos fazer algo parecido.

Era tempo de férias, a imaginação era posta a funcionar e, as brincadeiras de foguetes e morteiros aconteciam …

Em nossa casa havia vários gatos que andavam livremente pela casa e pelos campos anexos, com a especial protecção da Mamã que sempre gostou muito de animais. Por acaso, o Zeca (Tio Zé) descobriu que ao atirar um desses gatos ao chão, qualquer que fosse a forma usada, ele caía sempre com as patas para baixo. Resolveu então atirá-lo do pátio da cozinha que ficava  a cerca de 4 metros de altura do chão, para ver se continuava a cair com as patas para baixo, ficando portanto em pé. E assim fez!

Para grande espanto nosso, não só o gato chegava ao chão e ficava sempre de pé, como durante a descida, bufava valentemente, o que imitava um foguete a subir. Estava descoberto o foguete reutilizável!

Vai daí, a sessão “pirotécnica” repetia-se várias vezes com grande algazarra nossa, pois, o bicho ao cair daquela altura, meio atordoado, ficava de pé mas não fugia logo, o que dava tempo para o Marito (Tio Mário) o agarrar de novo e levá-lo ao fogueteiro que “na maior” lançava mais um foguete.

A sessão continuaria até que “o gato deixasse de bufar de vez” se não fosse o aparecer a Mamã que, com um grande raspanete, pôs fim àquela “tortura”. Pegando no bicho levou ao colo para longe daqueles “mafarricos”.

Mas o encantamento da festa continuava! E é então que o Nando ( Eu, Tio Fernando) toca a por as suas engenhocas a funcionar.

Devia ser possível fazer morteiros caseiros?! Na loja do Paizinho (Avô Aníbal) e onde também trabalhava o Padrinho, assim chamado por todos nós, (Tio-Avô Abel), vendia-se um pouco de tudo. Nessa altura não havia energia eléctrica na aldeia e a iluminação era feita ou com candeeiros de petróleo ou com gasómetros que trabalhavam a acetileno (obtido pela reacção química do carboneto de cálcio com água).

O Nando vai à loja, ao latão onde se guardava o carboneto, surripia uma pequena pedra do mesmo, procura uma lata de tinta vazia, mete a pedra lá dentro, deita-lhe umas gotas de água e fecha a lata  com a tampa bem apertada com um martelo. Coloca a lata no chão, no meio do campo, ficando a observar a alguma distância.

Oh! Maravilha das maravilhas! Passados uns instantes, um grande estrondo se ouviu e a tampa da lata foi pelos ares atingindo grande altura. Todo ufano pela descoberta, fui contar ao Zeca e ao Marito que, imediatamente, quiseram ver o “morteiro da Senhora da Lapa”, como eu lhe chamei.

Mais uma ida, às escondidas, ao latão do carboneto e novo rebentamento se ouviu, com grande admiração dos meus irmãos que tapavam os ouvidos com as mãos, mas prontos a procurarem a tampa da lata para que se repetisse tão fascinante acontecimento.

Porém, o “tiro” tinha sido tão estrondoso que foi ouvido pelo Paizinho dentro da loja. Veio ver o que se passava e descobriu o que andavam a fazer aqueles diabretes. Uma valente “ralhadela”, confiscação dos objectos do “crime” e, claro, a explicação do perigo que estávamos a correr. E, para que novas ideias não fossem postas em prática imediatamente, o Nando, nesse dia, foi mandado para a loja pesar arroz e açúcar em sacos de quilo.

Assim decorriam aqueles dias felizes das nossas férias…

Espero que neste momento já tenha conseguido entender o título desta crónica.

 

Tio Fernando           

música: Peter Tschaikowsky - Ouverture solennelle 1812 (final)
busca por temas:
publicado por Primos Online às 23:19
link do post | comentar | favorito
|
6 comentários:
De Tio Mário a 7 de Maio de 2006 às 01:04
Os meus parabéns.

Ultrapassaste todas as expectativas. Como cronista, como ilustrador e editor de posts.

Ponham aqui os vossos olhos, caganitos...

Algumas achegas históricas:

1º Uma cana de foguete quando apanhada ao vivo durante o fogo de artificio era troféu de valor inimaginável. Maior valor adquiria ainda quando se tratava do foguete mestre.

2º O gato, ou melhor, a gata, obviamente não era de cor anil, mas de cõr preta. Mais precisamente a gata preta da Prima do Sena.

2º As latas, se bem me lembro, teriam uma capacidade de 1/2 a 1 litro e os exercícios pirotécnicos ocorreram próximo da velha tangerineira.


congelado

De Anónimo a 7 de Maio de 2006 às 21:40
Vim a casa do Nuno e dei uma olhadela. Estou espantado com a vitalidade do blog. As intervenções da Tia Guida são magníficas e a crónica do Tio Mário fabulosa. Mas é bom que os caganitos saibam que me arrependi mil vezes das maldades que fiz aos gatos e, em penitência, já fui dez vezes a pé ao Jardim Zoológico.
Tio Zé

congelado

De Anónimo a 7 de Maio de 2006 às 22:31
Ao voltar ao blog, verifiquei que escrevi Tio Mário em vez de Tio Fernando. As minhas desculpas ao cronista. Mas isto também significa que estamos à espera de uma intervenção do Tio Mário.
Tio Zé

congelado

De Anónimo a 11 de Maio de 2006 às 12:12
Felicito o Tio Mário pela escolha da música. É um grande artista. A propósito, estou a pensar escrever uma história para os caganitos. Se puder, fá-lo-ei ainda esta semana, pois persisto em manter em dia a minha colaboração. Uma hipótese, é uma história de elefantes. Então, Tio Mário, toca a arranjar música adequada, com ronco de elefante ao fundo.
Tio Zé

congelado | discussão

De Tio Mário a 11 de Maio de 2006 às 18:28
Artista é aquele que cria uma flor, não o que a colhe.


De Paula a 12 de Maio de 2006 às 11:04
Permita-me discordar, meu caro Tio. Escolher a flor também é uma arte...!
Parabéns.

Paula


Comentar post

.pesquisar

 

.posts recentes

. porque ele é bom

. Por favor não use este bl...

. Protopoema

. O Baptizado da Maria

. Descubra se for capaz

. Mergulhando nas raízes

. Postal de Boas Festas

. A Travessia da Serra

. Chi vó, non pó

. Nasceu a Maria !!!

.busca por temas

. caixa de pandora

. canções

. cantinho dos caganitos

. cidade do porto

. conversas de primos

. crónicas de família

. crónicas do luxemburgo

. descubra se for capaz

. diversos

. esboços

. música

. poemas

. posts diversos

. todas as tags

.links

.Dezembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
27
28
29

30
31


.arquivos

. Dezembro 2007

. Outubro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.links

.Search

Loading

.O Sapo Cantor

Dedicado a todos os caganitos
Liga o som, clica aqui e segue as instruções

.Horas


.Música (Radio via Internet)


Música Clássica
I - www.infiniteclassical.com
II - sky.fm 24 aac+
III - inspiration-fm 24 aac+
IV - radio laser classical
V - mpegradio.com

Música de relax
I - ambient musiv4free.org
II - radio mystical

Música do mundo
sky.fm 24 aac+

Música Ambiente
homihomi.com

Rock anos 60/70/80
www.netclassix.com

Instruções
1. Verfique se tem a sua aparelhagem de som ligada.
2. Clique na música do seu agrado e aguarde uns segundos 3. Caso a música não arranque, clique em Instalar Winamp e siga as instruções. Nota: Esta instalação necessita de ser feita uma única vez

.Música (Leitor Audio)


Se gosta da música, compre os discos

.Páginas visitadas


blogs SAPO

.subscrever feeds