Quinta-feira, 18 de Maio de 2006

Os salões dourados das Filarmónicas Vienenses

Os comentários que têm sido escritos, deixam-me, por vezes, sem jeito.
Ele é “a técnica de som e efeitos sonoros”, ele são “as novas tecnologias”, ele é o “não sei onde este Blog irá parar”, ele é até “um canal de televisão da família”...
 
Ah! Se soubessem os arames com que está construído este mundo de fantasia!
E se soubessem o sofrimento nele encerrado!...
Vá. Deixem-se de elogiar as minhas capacidades técnicas. Não fico feliz por isso.
O meu sonho está para além das habilidades circenses que possa ou saiba exibir.
Não me quero iludir, nem ser iludido. A técnica sem paixão, engenho e arte não é nada. Mas, má sina a minha. O que me sobra em paixão, falta-me em "engenho e arte".
E, apesar disso, todos os dias fico deslumbrado com os seus segredos.
Ponho-me a imaginar o que faria com eles um Bach, um Mozart e tantos outros, Santo Deus. E mesmo eles, no seu tempo, não passaram de criados bem pagos para entreterem os seus senhores. Sucediam-se as vénias, as lisonjas o embasbacamento perante o seu virtuosismo, mas a beleza da suas obras era-lhes, o mais das vezes, completamente indiferente.
 
Duzentos e tal anos depois, nada se modificou.
 
A Igreja da Lapa estava cheia.
Nas filas da frente, as peles do costume. Os beija-mãos. Os focos da televisão. Os sorrisos de encomenda. Os “faça favor colega, por quem é?” Os “venha cá, Lili, dar um beijo ao Sr. Doutor”
 
Numa das bancadas laterais construídas para o efeito, um jovem, dos seus vinte e poucos anos, lia com ar compenetrado o folheto que lhe tinha sido distribuído à entrada.
 
Na zona do altar-mor perfilavam-se o coro e a orquestra.
 
As luzes da nave central apagaram-se. Por momentos as pessoas mexeram-se e tossiram nervosas, enquanto se faziam ouvir, ao sinal do primeiro violino, os sons aparentemente desconexos da orquestra à procura da afinação.
O maestro entrou em cena.
Houve palmas.
Fez-se silêncio.
A um gesto do maestro, a orquestra atacou o Introitus do Requiem de Mozart, imediatamente seguida pelo coro. Sucederam-se-lhe, como descrito no folheto, o
 
II - Kyrie
III. Sequentia
1 - Dies irae
2 - Tuba mirum
3 - Rex tremendae
4 - Recordare
5 – Confutatis
6 – Lacrimosa
IV. Offertorium
1 - Domine Jesu Christe
2 - Hostias
V. Sanctus
VI. Benedictus
VII. Agnus Dei
VIII. Communio
 
Só tomou consciência de si quando irromperam os aplausos.
 
De novo o mesmo corrupio do início, as mesmas peles a agitarem-se, os mesmos beija-mãos e todos os salamaleques costumeiros.
 
- Os meus parabéns, Monsenhor António. O concerto foi divinal. Não fosse o senhor e esta cidade seria um deserto cultural. Aproveitei para lhe trazer o cheque para a compra do novo órgão. Ao que oiço dizer, vai ser o maior da Europa. É pena que não tenhamos gente para o tocar. Mas que vai causar inveja, lá isso vai.
 
- Ó Lili faz um adeus à câmara.
 
- Então por cá colega?! Nem sabe como tenho saudades dos tempos em que ia com a Quicas aos Festivais de Salzburgo. Mas agora sou um homem de negócios e, como compreende, não se pode brincar com milhões...
 
- Para ser sincero, colega, eu até passei pelas brasas. Mas se não venho, ainda vão dizer no partido que sou um segundo .... (e cochichou-lhe qualquer coisa ao ouvido). Sabe de quem estou a falar...
 
A Igreja começava a ficar vazia. Olhei para o lado.
 
O mesmo jovem continuava sentado, absorto. Estranhamente o requiem trazia-lhe uma paz interior que nenhum xanax lhe poderia dar. Era vida e não morte o que sentia.
 
Só então compreendi que o coro e a orquestra tinham estado a actuar para uma só pessoa.
 
Saí sorrateiramente. Não queria ser visto. Sentia-me diferente, embora igual a todos eles.
  
Esta cena havia de repetir-se, anos mais tarde, em Viena de Áustria, embora, de forma diferente, como irão ver.
 
Estava eu em trabalho. O colega que me acompanhava queria aproveitar a oportunidade para ir ver a actuação da Escola de Equitação Espanhola. Ora eu, que nunca fui entendido nas artes equestres, nem acho os cavalos particularmente inteligentes, comecei por não aceder ao seu convite. Irritava-me ver aqueles animais, de porte imponente e soberbo, a obedecer às ordens duns imbecis, quando poderiam resolver o assunto de uma só assentada, com um par de coices bem mandados.
 
Inteligentes são os burros. Inteligentes, e com personalidade. O primeiro que os puser a saltar obstáculos num hipódromo, ou a dançar ao som de uma fanfarra, vai receber o prémio Nobel da imbecilidade humana.
 
Como dizia eu, o problema estava em acompanhar, ou não, o meu colega à Escola de Equitação Espanhola.
 
De repente fez-se luz.
 
- Ó Zé, eu vou ver os cavalos, se tu amanhã me acompanhares à sala de concertos da Filarmónica de Viena.
 
- Negócio fechado
 
E lá partimos os dois para a Escola de Equitação.
 
Foram 2 horas de sofrimento para mim e penso que para os cavalos também.
 
Tudo certo. Certo demais até. Nem um pinote, nem um coice que pusesse a ilustre assistência em alvoroço e o picadeiro de pantanas. Pobres bichos. Bem mais tratados e felizes eram os cavalos selvagens do Gerês.
Mas eu tinha que merecer o concerto do dia seguinte.
 
Eram 7 horas da tarde. Magotes de rapazes e raparigas de calças de ganga, alguns deles com sacos de plástico na mão, iam entrando para a sala de concertos. Eu e o meu colega, encafuados nos nossos fatos de executivos, destoávamos nitidamente. “- Mas que diabo, pensava eu. Não é todos os dias que se vem a uma sala de concertos destas”. Até uma camisa nova comprei para o efeito.
 
Entrámos. Fiquei embasbacado a olhar para a sala dourada e a pensar no meu íntimo: “Quando a Televisão transmitir o próximo Concerto de Ano Novo vou poder dizer: - Já estive nessa sala”. E antevia com gozo indisfarçável a cena do meu interlocutor a encolher-se todo, perante tão refinado "connaiseur".
 
Saí com a expressão do habitué destes locais de culto. Olhei ao meu redor e vi os mesmos magotes de rapazes e raparigas a dispersarem-se pelas ruas da cidade com o ar mais natural deste mundo.
 
Só então compreendi que, desta feita, a orquestra tinha estado tocar para todos, menos para mim.
 
Regressei ao hotel. Senti-me envergonhado e diferente de todos os outros. Agora por razões opostas.
 
Melhor ser um ouvinte apaixonado, num qualquer lugar perdido no mundo, do que um connaiseur pesporrente, num salão dourado de uma qualquer Filarmónica Vienense.
  
Com um beijo muito especial para os caganitos
     
Tio Mário
 
 
música: Johann Strauss,Radetzky Marsch,Karajan&Wiener Philharmonike
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publicado por Guri Guri às 18:00
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13 comentários:
De Anónimo a 18 de Maio de 2006 às 22:00
Um texto belíssimo que me deixou de gatas!
Não tens mais desculpas, Tio Mário! Escreve sobre a tua experiência rica e singular porque és o único na famíla que conhece todas as estações. Estiveste, até agora, calado para medires o pulso aos voluntários. Agora, vens avisar-nos que o blog é um caso sério. Não se faz mas fico muito contente. Continuarei a alinhar coisas tiradas das muitas fábulas que tenho na cabeça. Confio que terás à mão a música de fundo adequada: umas vezes, o hino à alegria, outras o requiem alemão.
Muitos parabéns! Para racionalizares a magia de que deste provas, anda a pé e (este conselho é da Bibi júnior) come sopa e bebe água se queres ser um "phessnhor"!
Este fim de semana, parto para a Finlândia
Se houver incêndio, não estou. Chamem o elefante-bombeiro...
Tio Zé

congelado | discussão

De Tio Mário a 18 de Maio de 2006 às 23:23
Quem ficou de gatas fui eu, com o teu comentário.
Quero acreditar na sinceridade das tuas palavras porque, de facto, eu não escrevo. Desabafo. De qualquer modo, ter um momento de magia, às vezes acontece. Ser mágico o tempo todo, é coisa bem diferente. E tu bem o sabes. Às vezes chego a pensar se não terás andado grande parte da tua vida no lado errado do circo, na jaula das feras (assim chamadas por maldade dos homens), quando o certo das coisas seria estares junto de pessoas com alma de gente.
Obrigado Tio Zé pelos teus parabéns.

PS.: Diz à minha querida Bibi (júnior) que pelo jeito que as coisa estão, dificilmente vou chegar a ser um “phessnhor"! Um beijito especial para ela.


De Anónimo a 19 de Maio de 2006 às 06:45
Continuo de gatas com o estilo e profundidade do Tio Mário.. Mas que passe a minha vida na jaula das feras (ainda por cima, agora, "de gatas"...) e me prive de pessoas com alma de gente...é um certo exagero. Se não fosse a actual desclassificação da frase, diria que tenho andado "por aí". E que, na banda estreita da minha profissão (que é, de facto, um circo...mas que profissão não é um circo?...) procuro ser honesto e manter a cabeça fora da água. Há, de facto, lugares e idades onde a probabilidade de se encontrar gente interessante é maior. Mas é a vida!... Olha, continua a escrever porque tens dotes extraordinários e não te esqueças: anda a pé, bebe água e come sopa...E apanha sol porque... vita brevis. A própria Bibi júnior me dizia , na sua filosofia dos 3, 4 anos: "Ainda (queria dizer "já") estás velhinho e tens o cabelo muito curto. E é verdade. O espelho diz-me que estou com o cabelo cada vez mais curto.
Tio Zé


De Tio Mário a 19 de Maio de 2006 às 10:42
Quem me mandou a mim, sapateiro, tocar rabecão! Eu devia saber que bem mais difícil que domar cavalos é domar palavras. Vai daí, por inépcia minha, elas tomaram o freio no dentes e toca a dizer aquilo que não estava bem no meu coração. Seguisse eu o exemplo do Tio Zé, como profissional e como escritor – sim, eu disse escritor - e nem uma palavra a mais, nem uma a menos. Tudo na medida exacta do pensamento. Mas isso era querer exigir muito de mim.
Oxalá consiga apanhar de novo as palavras sem tino que me fugiram das mãos. O que eu já não vou conseguir é evitar as mágoas que causei. Que grande trapalhada
Ao longo da minha vida, ainda que de uma forma fugaz e com um certo pudor, por várias vezes sugeri ao Tio Zé que escrevesse.
Com os meus quinze anos já eu lia poemas de amor escritos por ele, alguns em inglês. O meu encanto vem pois de muito longe. Depois foi vê-lo tornar-se um magistrado brilhante, amado por muitos e odiado por tantos outros, como é habitual nesses casos, mas sempre temido e respeitado. E foi sobretudo na fase de grande exposição mediática, à frente da Procuradoria que muitas vezes desabafei com amigos meus. “O que o meu irmão devia fazer era mandá-los a todos – leiam, as feras da jaula – à merda e tratar de escrever. O que faz com grande mestria”.
Não quis, não quero estigmatizar a sua profissão, o que seria completamente tolo da minha parte, mas aqueles - muito deles não sendo sequer seus pares - que, sem alma de gente, se lhe vão atravessando à frente. E isso de facto acontece em todas as profissões.
A Bibi (júnior) um dia há-de descobrir - por ora é cedo - o profissional, a pessoa boa e de bem, o pensador e o homem das artes que se esconde por detrás do Zézé , “velhinho e de cabelo muito curto”.E essa será a forma de eu dizer ao Tio Zé, fora de tempo, o que por falta de jeito e talento não fui capaz de fazer agora.
Andar a pé, beber água e comer sopa...e apanhar sol teria sido muito mais sensato e saudável da minha parte. Há coisas com as quais não se deve brincar. As palavras são uma delas.


De Anónimo a 19 de Maio de 2006 às 15:16
Não só estamos a ficar com o cabelo muito curto como nos estamos a transformar em marretas.
Não me magoaste coisíssima nenhuma!...
Vou à Finlândia em serviço e espero, no regresso, novidades do blog.

Tio Zé


De Nuno a 18 de Maio de 2006 às 23:47
Tens razão Tio Mário: às vezes fazemos o que não queremos e dizemos o que não sentimos.
Descobri, neste bolg, a sensibilidade que não conhecia dos meus Tios. A vida é complicada para todos, mas fico com pena porque nem todos nos apercebemos do significado disto tudo. Também falo por mim. Mas pelo menos, cada vez que aqui venho sinto-mes mais próximo de quem mais gosto. Mesmo que não diga nada. Continua e não desistas. Sê um "pssenhor".

Nuno

congelado | discussão

De Tio Mário a 21 de Maio de 2006 às 16:56
Às vezes dizemos o que não queremos e fazemos o que não sentimos. Como vês é só baralhar e voltar a dar. Mas quando o croupier não nos atinge com o bafo da sorte, pouco há a fazer. Perder, ou fazer bluff. Fingir que estamos vivos, quando há muito somos uma “carta fora do baralho”. (Um abraço, Zé Manel. Há tanto tempo que o não vejo!)


De Anónimo a 19 de Maio de 2006 às 23:24
Caros manos Zé e Mário , Fiquei com dúvidas sobre o que me tocou mais: a crónica "Os salões dourados das Filarmónicas Vienenses" ou os comentários que ela despoletou. Será que só agora, através do Blog e "com o cabelo muito curto", estamos a perder o pudor de abrir a caixa dos nossos sentimentos? Continuemos nesta linha através do blog e, talvez , aprendamos a dizer de viva voz o que sentimos uns pelos outros. Tio Fernando (Nando)

congelado | discussão

De Tio Mário a 20 de Maio de 2006 às 00:35
Pudesse eu ser dono do tempo e nada do que disse teria dito. Que importa o que escrevo, se tudo me dói. Talvez tu tenhas razão. Mas é tão tarde. E tanto por dizer!...


De Gabriela a 20 de Maio de 2006 às 20:10
Hoje pensei nos meus avós de Lagares e deu-me uma súbita vontade de que o tempo voltasse para trás para poder dar-lhes os beijinhos e mimos que não dei (a minha mãe quase me obrigava a cumprimentar meus avós) e perguntar: Qual é o segredo? Como é que se consegue ter cinco filhos e em todos eles fazer despontar esta terna e eterna doçura.


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De Tio Mário a 21 de Maio de 2006 às 02:21
A realidade não é aquilo que pensamos ver, mas o que os nossos olhos vêem, minha terna e eternamente doce Gabi.

Tio Mário


De Gabriela a 20 de Maio de 2006 às 20:35
Querido Tio Mário.
Tu sabes que para nós não és o virtuoso da informática.
És muito mais do que isso. Tu és um elo que nos une e que põe a descoberto todo o pudor e parcimónia que visivelmente nos caracterizam.
Porque tens o dom e a liberdade de seres tu próprio.
E de gostares das pessoas como são e não como deveriam ser.
Beijinhos da sobrinha que te adora, Gabi

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De Tio Mário a 21 de Maio de 2006 às 12:23
Por ti, minha querida Gabi, vou acreditar, por momentos, que é verdade o que dizes, não vá quebrar-se o teu enamoramento, ainda que tudo não passe de uma ilusão.


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