Sexta-feira, 19 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo - VIII

 
EU, HERÓI
 
 
 Em 1975, no ciclo quente da Revolução, fui parar a Lisboa e vivi situações espantosas de um tempo sem regras nem leis nem necessidade delas.
Mas a história não é essa.
Uns meses mais tarde, o Ministro Almeida Santos presidia a uma reunião em que se encontrava também o Procurador-Geral da República, Conselheiro Pinheiro Farinha, e cerca de duas dúzias de magistrados.
Depois de uma tarde de discussões, com algumas ideias e muitas teses estapafúrdias, o Ministro deu os trabalhos por encerrados e virou-se para mim (que me acabava de conhecer) com uma ordem que, como é seu timbre, parecia um pedido:
"Gostaria de o ver no meu gabinete amanhã às 9 horas".
Fiquei perplexo e lá fui.
Comunicou-me que, a partir daquele dia, passaria a trabalhar com ele na reforma do sistema judicial. Balbuciei desculpas esfarrapadas, argumentei que morava no Porto, protestei que havia outros melhor posicionados, rematei que nem sequer tinha posto o problema ao Procurador-Geral da República.
De nada valeu. Foi o começo de uma colaboração de que guardo grata memória.
O Dr. Almeida Santos preocupava-se constantemente com o facto de eu não exigir, não pedir nem aceitar nada.
Uma bela manhã chamou-me, meteu-me um bilhete de avião na mão e disse-me:
"Você anda cansado, é um especialista na matéria (o que era pura fantasia!) e é um favor que me faz deslocar-se a Estocolmo para participar neste congresso sobre a pena de morte.
E lá fui eu, com duas mudas de roupa que tinha trazido do Porto e a indicação de que o Embaixador em Estocolmo me adiantaria as ajudas de custo.
O pior foi quando vi o buraco em que me tinha metido.
Nessa altura, a Suécia era o refúgio de tudo o que era exilado político e o grande patrono dos mais variados movimentos emancipalistas.
Todos os grandes, da Líbia, ao Sara, à Palestina e ao Curdistão, estavam lá.
No almoço do primeiro dia, tive a sorte (assim me parecia) de ficar sentado em frente de um espanhol.
Apresentámo-nos, ele pediu-me para eu repetir o meu nome e quando retribui a cortesia, apontou solenemente para o peito onde tinha uma tarjeta que dizia:
Sanchez (penso que era este o seu nome).
E em subtítulo: "Condenado dos veces a muerte por Franco!"
Fiz um ar de espanto e ele perguntou, curioso:
"E tu, camarada?".
Ora, eu…que podia dizer?
Disse a verdade. Que era um simples técnico de leis, apanhado à má fila e sem saber ao que vinha…
O espanhol olhou-me de cima para baixo, de baixo para cima, sorriu com cepticismo e incredulidade, meneou lentamente a cabeça e, com ar de profundo respeito e admiração, observou, pontuando cada palavra:
"Comprendo-te, camarada! Non quieres hablar de tus hechos!
E, nos restantes dias do congresso, quando nos cruzávamos, curvava-se respeitosamente e saudava-me, com a veneração com que se homenageia o soldado desconhecido.
            
Tio Zé
música: Soledad Bravo - Hasta siempre Comandante Che Guevara
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publicado por Guri Guri às 17:45
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1 comentário:
De Tio Fernando a 19 de Maio de 2006 às 22:56
Caro Zé, Esta crónica, com o humor que lhe soubeste dar, confirma-me duas coisas: -Sempre foste descoberto, apesar de te não expores, graças ao teu mérito como técnico e à verticalidade da tua personalidade; -Na política estão permanentemente em jogo aspectos que parecem o que não são, ou são o que não parecem...Sempre soubeste guardar a distância que te permite ver mais claro. Mais uns tempos e teremos algumas "auto-biografias"... Tio Fernando

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