Sábado, 27 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo - IX

Uma comunhão solene há sessenta anos
 
A comunhão solene era um verdadeiro rito de passagem.
Os miúdos tinham feito a terceira ou a quarta classe (a quarta não era obrigatória) e preparavam-se para o ofício ou para assumirem, a tempo inteiro, as tarefas agrícolas ou domésticas que conheciam de tenra idade.
A comunhão solene era o momento da largada.
Realizava-se no verão, de dois em dois anos, e obedecia a cânones bem estabelecidos.
Um mês antes, começavam os ensaios, comummente conhecidos por "cerimónias".
As catequistas davam as últimas ensaboadelas, recuperavam os relapsos e mandavam recados aos pais.
Os "enorminhos" (atrasados mentais) não faziam a comunhão. Um ou outro candidato sem aproveitamento era "adiado" para a comunhão solene seguinte.
As "cerimónias" decorriam ao fim da tarde e eram momentos inesquecíveis.
Padre Zé oscilava entre a bonomia e o ralhete.
Normalmente estava de bom humor e falava do mundo. Contava o que os franceses pensavam de Portugal (ele sabia, pois tinha falado, no Porto, com um grupo de franceses) até à razão de ser do nome do mar mediterrâneo.
Se queria pôr em destaque uma ideia, fazia uma citação em latim. Mas, logo adiantava:
"Não estais a perceber nada, pois não?"
Raramente fazia perguntas sobre "doutrina", o que punha os comungantes à vontade, depois das ameaças que as catequistas tinham feito sobre o rigor e o grau de exigência do Senhor Abade.
Era normal uma ou outra resposta descabida e a ocorrência de trapalhadas. Quando as coisas descambavam com graça, Padre Zé mancomunava-se facilmente com os perturbadores da ordem, para escândalo e desespero das beatas.
As "cerimónias" eram fiéis à tradição.
Primeiramente, testava-se a voz dos oradores e o ouvido dos solistas.
Depois, iniciavam-se os ensaios propriamente ditos.
Padre Zé postava-se junto aos "oradores", com o texto na mão, e corrigia a dicção, a pontuação, o olhar e os gestos.
No caso dos cantores, tirava o lamiré do bolso da batina, dava o tom e abanava, pessimista, com a cabeça quando o solista era duro de ouvido. Se estava perante um dotado, Padre Zé não resistia a acompanhá-lo, em segunda voz, com um sorriso de satisfação.
Padre Zé tinha sentido prático e guardava os conteúdos de uns anos para os outros.
"As pombinhas da seara" era o título de uma melodia ingénua que normalmente constava do programa.
No entanto, o verdadeiro calcanhar de Aquiles das "cerimónias" eram as cenas dos "perdões". Não havendo a responsabilidade do dia da festa nem estando presentes todos os protagonistas, a canalha aproveitava-se.
Havia quatro "perdões": aos companheiros (as crianças umas às outras), ao povo, aos pais e padrinhos e ao pároco.
No "perdão aos companheiros", os comungantes formavam duas alas, orientadas no sentido do altar-mor, e, quando Padre Zé dava uma palmada, viravam-se uns para os outros. À segunda palmada, cada um avançava um pouco, punha as mãos sobre os ombros do colega que estava à sua frente e dizia:
"Perdão companheiro!".
Ora, os mais malandros não perdiam a oportunidade. Olhavam de soslaio para ver se a catequista estava alerta e, com as mãos sobre os ombros do "companheiro", mandavam uma canelada ao desgraçado que gemia quando não mesmo se atirava para o chão.
O "perdão ao povo" resumia-se a um curto discurso.
Ensaiava-se, depois, o "perdão aos pais e padrinhos" e "o perdão ao pároco".
Padre Zé sentava-se num cadeirão, colocado no transepto, e cada criança aproximava‑se, ajoelhava-se e pedia:
"Perdão e bênção!".
O guião estabelecia que Padre Zé estendesse a mão para que a criança a beijasse mas… ensaio era ensaio. Padre Zé ria-se, fazia comentários, esfregava carinhosamente a cabeça do puto ou dava-lhe uma estalada leve e amiga.
As beatas suspiravam, como quem diz:
"Assim não vamos a lado nenhum!".
Vinha o dia da festa.
Padre Zé conhecia a comunidade e interpretava as situações com sabedoria e simplicidade.
Havia duas missas. A primeira, às sete e meia/oito horas, em que se ministrava a comunhão; a segunda ("missa de festa"), às dez/onze horas.
Padre Zé explicava as razões desta dualidade.
A primeira razão era que os miúdos, particularmente os anjinhos, não podiam estar em jejum até muito tarde. Por isso, terminada a missa da manhã, deslocavam‑se, em cortejo, até à residência paroquial, em cujos acessos era servido o pequeno‑almoço.
A segunda razão era que, se a criançada fosse deixada à solta até à hora da "missa de festa", o mais certo era aparecer com os vestidos, as camisas e as asas infestados de nódoas de vinho.
A missa de festa era longa, cantada em latim e aparatosa (três celebrantes, o pregador, o mestre de cerimónias, o turibulário, o sacristão e acompanhamento a grande instrumental).
O sermão e os discursos tinham a retórica daqueles tempos.
No perdão aos pais e padrinhos, era recorrente o tema da orfandade porque, entre cinquenta ou sessenta crianças, havia uma ou outra que tinham perdido os pais. O pregador apelava o mais que podia à emoção dos presentes. Enquanto os pais e os padrinhos desciam pelo centro da igreja para beijarem os seus comungantes, a banda de música executava, e repetia as vezes que fosse preciso, o "largo" de Haendel.
O povo chorava convulsivamente.
De tal maneira, que Padre Zé, a certa altura, tinha de pedir, compungido, que enxugassem as lágrimas.
Quando estava presente, Padre Firmino era mais incisivo:
"Acabai com o berreiro para passarmos ao perdão seguinte!".
À tarde, era a procissão.
Os fatos, os vestidos e as indumentárias tinham sido aliviados de uma ou outra nódoa, as opas e os estandartes estavam no seu sítio, a banda de música a postos e a estrada sinalizada com verdes.
Saia a procissão.
Os comungantes formavam uma fila que avançava lentamente junto a cada uma das bermas.
Os anjinhos deviam ocupar o centro. "Deviam", porque residia aqui um dos quebra-cabeças da organização: manter os anjos no centro da estrada. Pela sua pouca idade, por distracção ou porque os parentes chamavam por eles, os anjos pareciam ter horror à linha recta. Tendiam para a ordem dispersa e exasperavam quem mandava, não obstante haver catequistas por perto para responder a qualquer urgência.
A procissão ia até ao cruzeiro das Portelas e regressava.
Quando recolhia, os comungantes entristeciam-se porque estava a chegar ao fim "o dia mais feliz das suas vidas".
É o que lhes tinha assegurado o pregador, no sermão da manhã, a propósito da vida de Napoleão (todos os pregadores utilizavam este exemplo) e da resposta que este dera quando lhe tinham perguntado qual o dia mais feliz da sua vida: o do ingresso na escola?... o do primeiro dinheiro?...o da vitória em Austerlitz…o….(o número de hipóteses dependia dos minutos que era necessário entreter).
A resposta do indómito general que o pregador, após uma pausa, proclamava com ênfase e que todos conheciam de comunhões anteriores (em Lagares ou fora) era:
"O dia da minha comunhão solene!"
Chegava a hora da alocução final.
Padre Zé dava os parabéns a todos, comentava uma ou outra fífia sem importância e não recusava uma piada a um apontamento que a merecesse. De seguida, tomava um ar grave para falar do futuro dos comungantes: da vida, da morte e da graça.
Era neste ponto que Padre Zé recordava que, daquele grupo de comungantes, o Senhor viria provavelmente buscar alguém.
E era verdade. As taxas de mortalidade infantil eram muito elevadas e sempre acontecia que, antes da puberdade, um ou outro partia.
Devo confessar que este epílogo da festa me arrepiava.
E que, quando foi a minha vez, não me esqueci de pedir a Deus Nosso Senhor que Se lembrasse de mim.
O que quer dizer: que não Se lembrasse de mim…
 
 
Tio Zé
música: Otche Nash, The Great Voices of Bulgaria
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publicado por Guri Guri às 08:00
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5 comentários:
De Tio Mário a 27 de Maio de 2006 às 21:54
Um retrato perfeito, magistral!

As duas últimas frases são de antologia. De um humor só teu.

Obrigado


congelado | discussão

De Anónimo a 28 de Maio de 2006 às 10:16
Como sempre, és excessivo, Tio Mário.
O problema não é o estilo. É saber se captei a personalidade do Padre Zé.
Eu próprio, fico com a impressão que, antes de escrever estes flashes, deveria fazer o retrato do Padre Zé: dos seus 1 metro e cinquenta e tal de altura, do cabelo emaranhado (era vulgarmente conhecido, nos meios eclesiásticos, por "Padre Riço"), da negligência no vestir, da sua forma peculiar de comunicar (Sim,sim,sim...) , do contínuo enrolar de tabaco 'Virgínia", do fumo do cigarro que soprava e fazia figuras geométricas no ar e da sua simplicidade a raiar o absurdo.E também das duas fases da sua vida. Da primeira (de que conheço pouco), em que andou de braço dado com o Estado Novo; da segunda, em que passou a habitar outra galáxia (era evidente que não fora talhado para o poder) e se dedicou à religião (uma fé simples, à medida do povo), às crianças e aos jovens (um pacto de solidariedade e de interesses selado até ao desatino) e às artes (a rua rabeca, o seu violão e os seus acompanhamentos em segunda e terceira voz, interrompidos pos acessos de tosse provocados pelo tabaco). Sem esquecer o seu fascínio pelas tecnologias e o deslumbramento com que agarrava um microfone (ainda que desligado) e começava a falar ao povo (ainda que representado apenas por um de nós).
Fica para a próxima, se os tempos que aí vêm não me desencorajarem.
Estou a acabar a tal conferência integrada no ciclo "As curvas do direito" e, às vezes, fico com a cabeça tão à roda que me faz bem, como agora, escrever sobre coisas simples.
Tio Zé


De Tio Fernando a 28 de Maio de 2006 às 20:19
Que bom recordar estes tempos, através de uma descrição como esta! Não disseste que tanto tu como eu fomos "solistas" de "Às pombinhas da seara", em anos diferentes. Ainda hoje pasmo como fui capaz de cantar... e como o Padre Zé teve tanta paciência para me segurar no tom. Os rapazes iam à frente, formados por alturas e atrás as meninas, igualmente formadas por alturas. A formatura era fixada nas primeiras "cerimónias" e cada um / uma tinha sempre o mesmo par. Como ficava na memória o companheiro da comunhão solene! No comentário do Tio Zé foram dadas mais umas pinceladas de mestre no retrato do Padre Zé. Logo que possas faz-nos transportar a muitos momentos de convívio que os "seminaristas" (onde estavam também incluídos os outros - poucos- estudantes ) tinham com ele. Em especial as cerimónias da Semana santa... Uma coisa é certa. nunca em Lagares houve tantos seminaristas e novos padres... Tio Fernando

congelado | discussão

De Anónimo a 28 de Maio de 2006 às 22:06
Não me recordava de que o Tio Fernando tinha sido solista de "As pombinhas da seara". De mim lembrava-me. E também de que O padre Zé não ficou impressionado com o meu ouvido. Mais tarde, começou a mimar-me, comentando que eu ia longe (sem nunca concretizar em quê nem para onde, é certo!). Desculpava-me tudo e até interrompia a missa para dizer (era o tempo em que eu começava a sarrinar os ouvidos dos fiéis com o harmónio):
"Parabéns, Senhor Organista!".
Deixo ao Tio Fernando a reportagem das cerimónias da Semana Santa para dar voz a um dos heróis. De facto, o Tio Ferando foi um dos inesquecíveis a quem foi confiado o transporte, pela igreja abaixo, de uma enorme bilha de águia benta que, como todos sabíamos, estava furada e iria aspergir as beatas com uma abundância que não constava dos cânones.
O seu a seu dono.
Tio Zé


De Tia Guida a 30 de Maio de 2006 às 23:20
Querido Zé
Fantástica esta tua descrição. Estou mesmo a ver as comunhões em Melres, claro, sem o Pe Zé...
"Às pombinhas da seara/Diz bondoso o Criador:/ Comei pombinhas o trigo/ Que semeou o lavrador. Que saudades amigo! O nosso pregador era da Lomba, tinha uma boa voz e declamava com mestria: As minhas asas brancas, asas que um anjo me deu, caíram pena, a pena, não posso voar ao céu! Era lindo!
Sabes o que eu admiro mais nas tuas crónicas que falam da infância? Uma coisa é a tua profunda admiração pelo Pe Zé. A outra é o pormenor com que descreves as mais simples ocorrências...devias ter grandes dotes como observador?! Além dos outros...Parabéns e obrigada pelas coisas simples que, por isso mesmo, são tão belas.
Vou falar ainda contigo no "Elefante Bombeiro"
Está tudo frio por aí, mas tudo bem! Assim espero. Um beijo para a Lucília e outro para ti, da
Guida

congelado

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