Quinta-feira, 22 de Junho de 2006

A Moleirinha

 
Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...
 
Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.
 
Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.
 
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...
 
Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.
 
Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume...
 
Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!
 
Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!
 
Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus...
 
Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...
 
Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!
 
Guerra Junqueiro (1850 - 1923)
 
 
Com um beijo para os caganitos
Guri Guri
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publicado por Guri Guri às 08:00
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4 comentários:
De Tia Guida a 24 de Junho de 2006 às 22:59
Ai Mário que coisa linda! Já me fartei de cantar a Lili Marleen a ver se conseguia cantar certo com a música em português e era tão bom quando chegava a Lili e acertava!
Agora vem a moleirinha! Gosto do poema e sei cantá-lo, porque aprendi na escola e gosto muito, muito do Guerra Junqueiro. Que bom mergulhar neste rio despoluído da nossa infância! Obrigada cunhadinho e que o S. João te dê muito juizinho.
Beijinhos

congelado

De Tio Fernando a 25 de Junho de 2006 às 11:44
Mesmo ausente lá para os lados do Torrão, o Guri Guri (Tio Mário) não quis deixar os caganitos sem esta linda prenda. Quem da nossa geração não conhece esta poesia? Tenho, porém, que confessar que não conhecia as últimas estrofes que são, igualmente, cheias de ternura e sabedoria. Priminhos, peçam aos vossos pais que vos ensinem a cantar este " toc toc toc ".
Boa estadia para os Tios Mário e Rita algures entre Douro e Tâmega.
Tio Fernando

congelado

De António Nunes a 5 de Julho de 2007 às 12:42
Viva
Pelos acasos da navegação internauta vim aqui parar. Melhor dizendo, escrevi um post no meu blogue que tinha relação com o primeiro verso deste poema de Gierra Junqueiro.
Permiti-me fazer uma referência a este seu blogue e copiar as imagens.
Uma abraço
António


De ajonmor@hotmail.com a 2 de Abril de 2011 às 23:08
Que saudade só por ver a capa do livro pelo qual estudei!!! Quanto ao poema, que doçura!!! Ouvi-lo cantado pela voz límpida e dicçao perfeita da ilustre
Senhora D.Maria de Lourdes Resende, que encanto e que prazer para os sentidos!!!
Honra a Guerra Junqueiro autor do poema e ao maestro Tomás Borba que o musicou.
Parabéns ao autor do blog que nos proporciona tão
belas jóis.
António Nascimento


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