Segunda-feira, 19 de Junho de 2006

Crónicas do Luxemburgo - X

Uma figura inesquecível

 

 Imaginem um homem naquela época "velho", mas agora (que tenho a mesma idade) na "flor da vida".

Digamos sessenta e tais.

Um metro e cinquenta e poucos, grandes bigodes retorcidos na ponta, tez morena, olhos azuis piscos, cabeleira farta a cair sobre a testa e uma voz grave e roufenha.

Vestimenta: botas desfiguradas pelo uso, calças surradas, um colete de onde pendia um relógio de bolso preso por uma corrente (aparentemente de ouro), um casaco com o forro dos bolsos de fora e dois ou três lenços tabaqueiros que espreitavam. Uma bengala improvisada de pau de marmeleiro.

Fumador inveterado.

Sejamos fiéis à história. A maior parte do tempo não o dedicava ao fumo mas a enrolar a mortalha e a humedecê-la, com duas ou três passagens pelo lábio inferior, funcionalmente descaído pela repetição da operação.

Era o Senhor Armando de Ordins.

Pertencia a uma família considerada (os Nogueiras).

Não sei se por ascensão ou por queda social, exercia a honesta profissão de sardinheiro.

A partir de certa altura (foi já nesta fase que o conheci), a venda era feita pela mulher e pelos filhos e o Senhor Armando entretinha‑se a bebericar, pelas lojas e tabernas.

Era homem de poucas palavras, correcto e cheio de humor.

Combatente da 1ª Grande Guerra e "gaseado". Como ele se orgulhava de dizer, "esgazeado da guerra".

Encontrá-lo sóbrio só aos alvores da manhã.

Quando chegava a nossa casa, já tinha feito várias "visitas".

Tinha com o nosso Pai uma relação de intimidade e respeito.

Depois de dois quartilhos, ele próprio pressentia que iria passar a uma fase superior de "luta".

Desatava os lenços tabaqueiros e punha todo o dinheiro em cima do balcão:

"Aníbal, toma conta, que é para eu não perder!".

A partir desse momento, era natural que os restantes quartilhos fossem cuidadosamente misturados com água, ao que ele parecia indiferente.

A cada trago, continuava a estalar a língua na boca e a piscar o olho:

"Que pinga!".

Assumia, com humor, as agruras daquele destino, como daquela vez em que, no regresso a casa, não conseguiu ir além da presa dos Vasos e por aí se alojou, imaginando que estava na cama. "Estás mais áspera, hoje, Maria!", filosofava, enquanto estendia a mão e apertava um molho de silvas.

Recordo-me de algumas cenas exemplares.

A mais relevante aconteceu quando fomos a sua casa pedir para a festa da Senhora da Lapa.

O Senhor Armando foi buscar uma velha bota da tropa de onde retirou uma nota muito sebenta de vinte escudos (era dinheiro, ao tempo!…).

A propósito da bota, contou um episódio da guerra, em que se misturavam as boas relações que tinha estabelecido com os alemães (dizia "alemões"), a protecção divina e a vida nas trincheiras.

Contava ele que a Cruz Vermelha fornecia aos soldados, entre outras coisas, sabão. "Nazaré", referia ele "para os alemões entenderem".

Os soldados trocavam, com os alemães, sabão por pão.

Abriam-se formas gestuais de mercandejar.

Um dos braços significava a medida, outro a quantidade.

O Senhor Armando esticava o braço esquerdo e oferecia "Nazaré" (sabão) e apontava, com o outro braço, cinco centímetros a contar da mão. Pedia em troca brot (pão em alemão, que ele pronunciava "bruto") e indicava 40 centímetros do braço-medida, quase até ao ombro.

O alemão acenava que não e propunha:

"Bruto" (mostrava 10 centímetros de braço), "Nazaré" (media 30 centímetros).

O acordo fixava-se frequentemente na mesma proporção de braço para o sabão e para o pão ("Nazaré"/"Bruto")

O Senhor Armando doutrinava, depois, sobre a fé e o esforço humano.

Em plena trincheira, a artilharia pesada assobiava por cima e os soldados rezavam e chamavam pela família:

"Ai, Nossa Senhora, ai minha mãezinha!".

O Senhor Armando não.

Decidia, antes das rezas, vir cá fora e "calcular a p. da vida".

Ora, um dia, no exacto momento em que vigiava o horizonte, ouviu um tiro de canhão que lhe fez voar metade da "canhota" (a espingarda) e "limpou" todo o pelotão.

O Senhor Armando foi verificar os estragos e o que encontrou foram despojos humanos e um ou outro gemido de agonizantes.

Agradeceu, agora sim, a Nossa Senhora.

Outra história passa-se já na segunda grande guerra.

O Senhor Armando vai ao Porto visitar uma filha que aí trabalhava como criada de servir.

Levava um salpicão, um pedaço de broa e um garrafão de cinco litros para as primeiras necessidades.

Na estação se S. Bento, o guarda-fiscal perguntou-lhe pelas guias do vinho.

Nesse tempo, só se podia entrar nas cidades com guias de trânsito de alimentos.

O Senhor Armando confessou que não tinha papéis.

Ripostou o guarda-fiscal:

"Então, não passa!"

O Senhor Armando não se intimidou:

"Ai, isso é que passa!".

E, entre o "passa", "não passa", o Senhor Armando meteu o garrafão à boca e não parou enquanto não o esvaziou.

O guarda-fiscal só arregalava os olhos.

No fim, o Senhor Armando, um pouco cambaleante é certo, ajeitou o casaco para recuperar a sua dignidade de cidadão e enfrentou o guarda:

"Vê como passou?"

A terceira cena fotografa o Senhor Armando já um pouco decrépito, na festa do Senhor dos Passos.

Encostado à parede do campo que é hoje da paróquia, em frente a nossa casa.

Trazia pelos ombros um lenço de merino e pendurado ao pescoço um grande cordão de ouro. Numa das mãos, uma mala de senhora.

"Bom dia, Senhor Armando!" – cumprimentei.

Piscou o olho e explicou o luxo. Tinha oferecido a uma das filhas o lenço, o cordão de ouro e a mala e acabava de confiscar o presente por suposto mau comportamento da rapariga.

Um dos últimos flashes encontra o Senhor Armando na Igreja, num domingo à tarde, na "hora de adoração".

Cantava-se o "Tantum ergo".

O Senhor Armando também acompanhava mas, da garganta, castigada por muitos anos de verde tinto, só saía ar.

Devotamente, o Senhor Armando mexia os lábios, assumia o sopro que não a voz, e encolhia os ombros, como quem diz:

"Cada um faz o que pode!".

 

 

Tio Zé

música: Lili marlene - Wehrmacht, Marlene Dietrich, Bavarian Singers
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publicado por Primos Online às 11:10
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9 comentários:
De Anónimo a 19 de Junho de 2006 às 16:12
Felicito o Tio Fernando pelo excelente trabalho.
A música representa um Senhor Armamndo de asas, empoleirado nas núvens.
Lá onde o Senhor o tem, ele preferiria continuar a ser "um esgazeado da guerra".
Por isso, a 1820 de Tschaikovsky, com o dobrar dos sinos e o tiros de canhão, adequar-se-ia melhor à celebração da sua entrada no céu.
Era um homem com pecados menores e, além do mais, fiel à divisa "fia-te na virgem e não corras" que não deixa de ser um pensamento cristão.
Conclusão: o Tio Fernando e o Tio Mário devem continuar em contacto para potenciarem as suas qualidades artísticas.
Por aqui, calor, trovoada e chuva.
Estou só com o Puschy.
Ele sabe.
Enquanto poupa a "mãe", comigo é exigente. Levantou-se, hoje, à mesma hora que eu (o que nunca faz) e exigiu pequeno almoço à inglesa: bocadinhos de frango, ração, meia torrada e um pouco de leite...
A Maria Lucília desespera-se com a falta de apetite do bicho e alega que, antes das onze horas (hora do levantar) ninguém lhe pode falar em comida.
Um aldabrão, como hoje confirmei.
Ou melhor:
Um Senhor cão!
Tio Zé

congelado | discussão

De Tio Mário a 19 de Junho de 2006 às 19:56
Espero que o Sr. Armando se sinta "melhor acompanhado" pela Wehrmacht.

Lili Marlene, canção alemã, escrita em 1915, tornou-se muito popular durante a 2ª Guerra Mundial, apesar da oposição do regime nazi, em particular de Goebels, o secretário da propaganda nazi. Todavia, após a tomada da cidade de Belgrado pelos alemãos, a rádio Belgrado passou a transmiti-la todas as noites, às nove da noite, sendo ouvida quer pelos soldados alemães quer pelos soldados das forças aliadas.

Que a memória das coisas não se perca e os caganitos aprendam a amar esta Europa, construída sobre muito sangue, suor e lágrimas.

LILI MARLEEN

Ali, junto ao quartel
ao pé da grande porta
havia um candeeiro alto
que ainda hoje se mantém de pé.
era aí que nos queriamos reencontrar
onde ficaríamos os dois, junto ao candeeiro
como antigamente, Lili Marleen
como antigamente, Lili Marleen

As nossas sombras encontravam-se
juntas fundiam-se como se fossem uma só
estávamos tão apaixonados
todos o podiam imediatamente ver
todos podiam contemplar-nos
quando estávamos junto ao candeeiro
como antigamente, Lili Marlen
como antigamente, Lili Marlen

E foi então que a sentinela gritou:
“já tocou a reunir,
podes perder três dias de licença"
"camarada, já estou a caminho"
e foi assim que tivemos que dizer adeus
o que eu preferia ter ido contigo
contigo, Lili Marlen
contigo, Lili Marlen

O candeeiro sabe de cor as tuas passadas
o modo gracioso do teu andar
e, embora se acenda todas as noites
esqueceu-me já há muito.
se algo me acontecer
quem ficará debaixo do candeeiro
contigo, Lili Marlen?
contigo, Lili Marlen?

Dos céus acima de nós
das profundezas da terra
os teus lábios, como se eu sonhasse
elevam-se à procura dos meus
e eu, perdido no nevoeiro do entardecer
espero-te junto ao candeeiro, mais uma vez
contigo, Lili Marlen
contigo, Lili Marlen.


De Tio Fernando a 19 de Junho de 2006 às 18:32
Tio Zé,
A tua crónica trouxe à minha memória a figura e personalidade do senhor Armando (sardinheiro) de uma maneira tão viva que me sensibilizou verdadeiramente. Digo-te como os nossos netos: "conta mais uma história! Só mais uma!..." Cá fico à espera. Quanto à música, vais ter de te habituar a um down-sizing " do apuro a que o Tio Mário nos habituou. Mesmo assim, conseguiste ver na música que estavas a ouvir o senhor Armando ... Parabéns pela tua imaginação. Espero que o verão chegue aí e o putchy faça boa e obediente companhia aos donos
Tio Fernando

congelado | discussão

De Anónimo a 19 de Junho de 2006 às 22:08
O Senhor Armando, no bom lugar em que se encontra, emocionou-se com a nova música:
"Esses alemões, esses alemões... ai que tempos...que grandes f. da p.!", disse, antes de se persignar e tirar do bolso do colete dois vinténs de tabaco e uma mortalha.
Eu, que não estou num bom lugar, embora bem acompanhado do meu fiel senhor D. Puschy, digo: Não se zanguem, meninos! Façam o favor de ser felizes.
Tio Zé


De Um Blogger de partida a 19 de Junho de 2006 às 20:28
Deixem-se das "qualidades artísticas" e do "apuro a que o Tio Mário nos habituou" e falem de coisas que valha a pena.

Há tanto para dizer!...

Um abraço
~
Tio Mário

congelado

De Paula a 20 de Junho de 2006 às 00:24
Parabéns ao Tio Zé e ao meu pai!!!
E tu, meu mafarrico, quando partes para Entre-os-Rios?!
Bjs para os três.

Paula

congelado

De Tia Guida a 24 de Junho de 2006 às 22:51
Que maravilha Zé! Digo como o Fernando, gostei muito, conta, conta mais histórias!
Aquela da água misturada na pinguita, está para mim com grande sentido de amor ao próximo e, nesse tempo, ninguém pensaria na Pastoral da Sobriedade que pelo menos no Brasil existe.
Conta mais histórias meu amigo, que muito gostoso é lê-las...
Um beijo amigo

congelado

De Alberto a 25 de Junho de 2006 às 13:20
... que picardias!!!

Será que a idade me vai trazer memorias de tempos que valham a pena contar???? As vidas em prédios, ou Flat's, como gostaria de dizer a Senhora minha Sogra, não facilita este tipo de cenas, mas a atenção há-de trazer outras...

Quanto a esta Europa que é "preciso amar"!!! Oh Tio Mário, vou ali e venho já... Que sitio menos desafiante para viver. Valha-nos os Alemões com o seu campeonatozinho do Mundo... Sinal dos tempos!!!

E Tio Zé, só mais uma...

Viva a Holanda

congelado | discussão

De Tio Fernando a 26 de Junho de 2006 às 00:11
Caro Alberto,
Sei que é o seu nome, mas gosto mais de o tratar por Sérgio.
Deixe que lhe diga: Se não são os europeus a amar a Europa quem a amará? Concordo que haverá outros lugares mais estimulantes para viver, mas quem os terá construído? Certamente não foram os estrangeiros desse lugar.
Os nossos filhos/netos precisam de acreditar que vale a pena lutar para que a Europa seja (ou venha a ser) a casa onde tenham orgulho de viver.
Espero que esteja tão enganado no seu pessimismo como no resultado que previu para o Portugal-Holanda ...
Viva Portugal!
Tio Fernando


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