Quarta-feira, 5 de Julho de 2006

Crónicas do Luxemburgo - XI

A árvore do macaco

 

(Para a Catarina, a Bibi, o Nunocas

e todos os priminhos on line)

 

A Catarina e a Bibi conhecem a árvore.

Fica a cinquenta metros da presa dos Vasos e está assinalada com um risco. Fi-lo com um graveto.

Vão visitá-la que vale a pena.

A Catarina e a Bibi já conheciam os factos. Mas, naquele dia, hesitei alguns minutos até localizar a árvore.

Consegui. Trata-se de um pinheiro.

A Catarina propôs imediatamente:

"Zézé, põe uma marca para não nos voltarmos a perder!".

Assim fiz.

Quanto à história é, como sempre, pura realidade.

Num Outono doce de há muitos anos, constou, em Lagares, que um ser estranho percorria os montes, de noite, guinchando e saltando, veloz, de árvore em árvore.

Umas pessoas apostavam que era um monstro; outras temiam que fosse o diabo.

Dizia-se que era preto, peludo, com olhos brilhantes e focinho de gente.

Os lugares onde o bicho (ou pessoa? ou lobisomem?) aparecia variavam.

Havia quem o tivesse visto a passear no monte da Senhora Aninhas, a rolar pela ribanceira do campo da bola, a beber água no fontanário, a dançar no meio da estrada ou a saltar de árvore em árvore que era a história mais corrente.

Ninguém, no entanto, se atrevia a aprofundar a questão.

Os mais afoitos ousavam:

"Amanhã, pego numa forquilha e vou por aí acima!".

Mas é o ias.

"Então, Senhor António, o que é que encontrou?

"Ai, é verdade, não pude ir. Esqueci-me que tinha a feira. Fica para a semana…".

Outros eram mais sinceros:

"Não sou dos mais medrosos. Mas com esses bichos, monstros, diabos ou lá o que é, não me meto. Ainda outro dia, em Recarei, o maquinista do comboio ficou assombrado e tolhido com um bruto (queria dizer vulto) destes!".

"Então, tu acreditas?".

"Nem acredito nem desacredito. Com coisas sérias não se brinca!".

O Tio Manuel (pai das primas Isabel e Odete) era um homem destemido e corajoso. Onde lhe constasse que existia bicho ou coisa estranha, aí estava ele. Um dia, contarei a história dos quatro raposinhos que me trouxe de presente.

Pois, logo que o Tio Manuel soube que o tal bicho-fantasma andava por aquelas paragens, anunciou aos quatro ventos que, no dia seguinte, de manhã cedo, iria, com o moço (o criado da lavoura), ver o que se passava.

Chegado perto da presa dos Vasos, o Tio Manuel ouviu uma espécie de gargalhada vinda do cimo de um pinheiro e tomou os devidos cuidados.

Encostou-se a um eucalipto e pôs-se a observar.

Não teve dúvidas.

Era um macaco. Estava encavalitado em cima do pinheiro, a comer descansadamente uma noz que tinha apanhado numa nogueira.

O Tio Manuel disse para o moço:

"Vou apanhá-lo!"

E, com muita calma, subiu pelo pinheiro acima.

O macaco permaneceu onde estava, com a maior tranquilidade. Olhava o Tio Manuel de soslaio, com curiosidade, como a querer dizer:

"O que anda este senhor a fazer por estas bandas?".

Mas nada mais.

Porém, quando o Tio Manuel chegou ao topo do pinheiro, o macaco deu uma gargalhada e, zás, saltou para outra árvore: um carvalho.

O Tio Manuel desceu pacientemente o pinheiro e subiu, com agilidade, pelo carvalho acima.

Mas a cena repetiu-se. O macaco calculou a distância e, quando o Tio Manuel lhe ia deitar a mão…pumba…saltou para um sobreiro.

E, por aí adiante.

Então, o Tio Manuel teve uma ideia.

Disse ao moço:

"Vai buscar meia dúzia de pessoas!"

E assim foi.

Vieram seis rapazes e o Tio Manuel estabeleceu inteligentemente um plano:

"Cada um de vós sobe até ao cimo das árvores que rodeiam aquela em que está sentado o macaco e fica lá. Se o macaco saltar para essa árvore, é só apanhá-lo, pois o animal não é feroz".

Mas o Tio Manuel não contou com a esperteza do bicho.

Todos a postos. O macaco no galho de um pinheiro, a mastigar distraidamente uma avelã, e aí vai, vitorioso, o Tio Manuel.

Estava a vinte centímetros do bicho e já estendia a mão para o agarrar quando este cuspiu a casca da avelã e desferiu uma tremenda bofetada na cara do Tio Manuel.

O Tio Manuel não teve tempo para reagir. Deslizou pelo pinheiro abaixo, como um gato, com a mão na cara e visivelmente surpreendido.

"O safado saiu melhor que a encomenda!", comentavam todos.

Ninguém, no entanto, pensou usar de violência.

O macaco era um animal praticamente desconhecido em Lagares mas os que tinham ouvido histórias de macacos só podiam achar piada às suas tropelias.

Ora, estes acontecimentos tinham-se propagado e, nas freguesias vizinhas, falava-se à boca pequena de todas as peripécias.

Foi então que o carteiro de Paço de Sousa, o Senhor José, trouxe a última novidade e a chave do problema.

O macaco era o macho de um casal de macacos que viviam na Quinta da Pena.

Tinham vindo de África. Viviam na maior harmonia e foi o desejo de conhecer mundo que levou Adriano (era assim que se chamava o macaco) a escapulir-se.

Era possível que, se trouxessem ao local a fêmea, Adriano abandonasse as acrobacias, descesse da árvore e se deixasse apanhar.

Mas nem foi necessário tanto.

Chegada a macaca aos Vasos, o "marido" sentiu a sua presença, deu um guincho de satisfação e desceu rapidamente do pinheiro em que se encontrava.

E, depois, foi o que se viu.

Deram a mão um ao outro e resolveram voltar a casa.

Formou-se um verdadeiro cortejo nupcial: o casal de macacos e o povo que alegremente os quis acompanhar até Paço de Sousa.

Consta, mas aqui limito-me a narrar o que me foi referido, que os dois macacos ouviram um grande ralhete dos donos. E que, logo a seguir, foram mimoseados com um lauto almoço, tal era o contentamento de toda a gente.

Quanto ao Tio Manuel, não ficou ressentido com a bofetada que apanhou e até achou graça.

Mas não deixou de desabafar:

"Para a próxima, já sei que um macaco em cima de uma árvore é um senhor!... Merece respeito!".

Tio Zé

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publicado por Primos Online às 23:25
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3 comentários:
De Anónimo a 6 de Julho de 2006 às 08:03
Parabéns ao Tio Fernando pela excelente composição gráfica e pelas ilustrações. Se querem, de facto, visitar a árvore do macaco, não se ponham com desculpas.
É só seguir a indicação constante do mapa.
E, quem sabe, outros bichos espantosos poderão aparecer por aqueles sítios!
Tio Zé

congelado

De Tio Fernando a 6 de Julho de 2006 às 10:59
Mais uma história do Tio Zé que vai, assim, fazendo a memória das nossas raízes. Como é bom ver aparecer na cena personagens que estavam já na penumbra da minha memória: O Tio Manuel (marido da Tia Augusta, irmã do Avô Aníbal )! O Senhor José, carteiro, cuja imagem se acendeu na minha memória logo que li o seu nome, e que além de carteiro fazia muitos favores levando e trazendo pequenas encomendas pelas terras por onde passava!
Ao ler esta história passada na zona dos Vasos, logo recordei o lavadouro que havia nesta presa e onde as nossas criadas iam, algumas vezes, lavar a roupa. Para nós era muito bom ir com elas e brincar ao volta da presa.
Numa dessas excursões a Tia Zinha caiu dentro da presa que, felizmente, não estava muito cheia, mas o suficiente para ficar toda molhada.
Logo após o "salvamento" as criadas tiraram-lhe a sua roupa e vestiram-lhe a única roupa que ainda não tinham metido na água para lavar: uma roupa de rapaz que, salvo erro, era do primo Manuel Joaquim que, nessa altura, estava a passar uns dias em Lagares. Imaginem a cena da chegada da Tia Zinha a casa, naquele preparo...
Tio Zé, continua a avivar-nos a nossa memória.

Tio Fernando

congelado

De Bibi a 14 de Julho de 2006 às 21:27
Obrigado pai e avô querido por nos refrescares com as tuas histórias verdadeiras. Bjs

congelado

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