Sábado, 3 de Março de 2007

Mergulhando nas raízes

O “Menino do cesto” tem pedido por várias vezes para falar das Tias de Melres que marcaram realmente a sua vida como a de tantos outros que com elas tiveram a alegria de partilhar do seu dia a dia em ambiente cem por cento familiar.

Para aqueles que não as conheceram é necessário fazer um pouco de história.

As minhas tias (Alice, Virgínia e Lídia), eram conhecidas pelas “Meninas Ferreirinhas”, nome que surgiu pelo facto de seu pai ter nascido no lugar de Ferreirinha, freguesia da Foz do Sousa - Gondomar, e de lá ter vindo para Melres.

A sua casa ainda lá está, tal como era no tempo do meu avô. É bom ir às raízes e descobrir o que nelas se encontra, como em árvore de grande porte! É bom ir às raízes e penetrar na seiva que dá vida a esta árvore frondosa donde brotamos, como rebentos, em primaveras diversas. É salutar este mergulho, como quem vai ao fundo do mar em busca de tesouros escondidos.

Habitavam as três irmãs a Casa de Penacidra, no lugar da Boavista em Melres, onde nasceram e permaneceram, porque, sendo três, nenhuma delas se casou. Não porque fossem diferentes das outras raparigas do seu tempo, mas “há razões que a razão não conhece”…

                   

A Tia Gina (Virgínia) sempre se dedicou ao ensino e, um dia, apaixonada pelo carisma do Pai Américo, deixa tudo e vai fazer-se mãe de tantos que ajudou a crescer. Ali era verdadeira mãe: se estavam doentes, ela velava a sua cabeceira; aos pequeninos acordava de noite para que não molhassem a cama; e aos menos estudiosos lá andava com os seus livros às voltas. Vinha muitas vezes a Melres e trazia com ela um sorriso que jamais esquecerei que escondia o segredo da verdadeira felicidade. Em Melres, ensinou muita gente, formou Grupos Corais, ajudou os pobres e por seu intermédio se construíram casas do Património dos Pobres nesta freguesia.

A Tia Alice muito cedo veio viver para o Porto, para casa dos padrinhos, Senhor Brito e D. Rosinha, na Travessa do Campo 24 de Agosto, n.º 77. A sua doação à madrinha, durante a doença que se prolongou por muito tempo, foi motivo de grande admiração. O seu sorriso, a sua ternura, a sua meiguice encantaram a minha infância, pois desde os meus três anos de idade passava temporadas com ela. Todas as pessoas de Melres que tinham problemas vinham bater à sua porta.

A Tia Lídia foi sempre a mais ligada à casa mãe, a Casa de Penacidra, e mais virada para a administração das propriedades que pertenciam às três. A sua amizade pela irmã Alice foi sempre muito grande o que foi bem demonstrado pela maneira como a tratou durante os longos anos da sua doença, como se de um “bebé” se tratasse. Sempre dizia a Tia Lídia: “Ela sacrificou-se a tratar da madrinha, também há-de ter quem trate dela”. E assim aconteceu! E com que desvelo e dedicação o fez! Foi para nós um exemplo do que é a verdadeira amizade: “Aquele que ama é o que dá a vida pelos amigos”.

A Casa de Penacidra foi sempre um local de acolhimento. Ainda hoje, já lá vão tantos anos, muitas pessoas nos vêem dizer que se recordam de ter aprendido a costurar e a bordar em casa das “Ferreirinhas” e que lá também se iniciaram na arte da música. E, sempre que havia os célebres leilões em favor da Igreja de Melres ou qualquer outro evento mais significativo, as “Ferreirinhas” aí estavam presentes para animar, colaborar, liderar. É com orgulho que os seus sobrinhos dizem: “eu sou Ferreirinha”!

Naquela casa rezava-se, amava-se, brincava-se, mas o respeito pelos outros era ponto de honra.

Gostava muito de viver nesta casa porque a alegria era uma constante e as histórias de bruxas e de aparição de extra-terrestres não tinham lá guarida. Isto marcou a minha vida para sempre.

E agora que falei um pouco das minhas queridas três tias, vou falar-vos da ligação que havia entre Melres e Lagares.

A avó Idalina, antes de casar, morava numa casa que o Tio Fernando já referiu numa das suas crónicas. Ao lado morava a D. Rosa, professora em Melres, casada com o Senhor Cardoso, também ele lá professor, com dois filhos, o Senhor Cardoso (filho) e a D. Fernanda Cardoso, que vieram a ser igualmente professores, sendo esta última a madrinha do Tio Fernando, ainda viva.

    

O quintal da casa da D. Rosa fazia extrema com os campos da Casa de Penacidra, daí o ter-se criado uma passagem entre as duas propriedades pois a família Cardoso tinha grande amizade com as “Ferreirinhas”.

Assim se formou uma grande amizade, especialmente entre as jovens Idalina, Fernanda Cardoso, Lídia, Alice e Virgínia que várias fotografias demonstram a alegria dos seus folguedos.           

Há até uma foto da Mamã (D. Idalina - Avó Idalina) coma a Tia Alice vestidas de noivos. Foi uma amizade muito bem cimentada, uma amizade da idade dos sonhos e do alvorecer dos amores que confidenciavam entre si. A Mamã casou e foi viver para Lagares, mas a amizade permaneceu como corrente forte que o tempo não desgasta. Há correspondência desde os primeiros tempos de separação que provam isso mesmo.

E, agora, começa a perceber-se o porquê das vindas a Melres pela serra com os filhos pequenos e a nossa estadia conjunta na Foz, na Travessa da Senhora da Luz, com as tias Ferreirinhas e a Mamã.

Nessa altura iam para a “praia” a Vóvó (bisavó Maria José), a Mamã, a Tia Lídia, Tia a Alice, o Nando (Tio Fernando), a Zinha (Tia Zinha), o Zeca (Tio Zé), a Guidita (eu própria) e o Zé Henrique (meu irmão -Tio Rique), os mais velhos. 

Destes tempos, muitas histórias há que quem quiser poderá contar, a seguir. Pouco me lembro desse tempo a não ser do meu irmão a subir a íngreme calçada da Travessa da Senhora da Luz e vir ter com ele uma miúda que lhe deu um safanão. Quem conhece a calma e a bondade dele, certamente achará graça à sua resposta: “Quando fores à minha terra eu digo-te como é!” Claro que não me posso esquecer dos banhos de mar forçados, quando o banheiro nos tomava nos braços e esperava que a onda subisse para nos “enfiar” dentro dela…

E também lembro com muita nitidez a figura do meu avô, pai das minhas tias e do meu pai, que passava algum tempo connosco na Foz. Dele algo me ficou muito marcado quando me dizia que o “eléctrico” parava quando ele mandasse.

Vim a descobrir muito mais tarde que o “eléctrico” realmente parava na paragem…

Esta cena deu origem a um poema que escrevi e ficou no Cancioneiro Infanto-Juvenil da Língua Portuguesa editado pelo Instituto Piaget.

O tempo foi passando “como um ai que mal soa / como sombra que passa / como nuvem que voa” e os meninos cresceram e tiveram que ir estudar para o Porto.

Foi nessa altura que a casa da Tia Alice na Travessa do Campo 24 de Agosto, 77 se transformou num lar de estudantes por onde passaram muitos de nós “aturados” pela Tia Alice, Tia Lídia e uma empregada. Aqui as minhas tias eram mães a tempo inteiro dos que por lá foram passando e que elas a todos queriam do fundo do coração. Fizeram, sucessivamente, parte desta “quase república” o Tio Fernando, a Tia Zinha, o Tio Zé, o Henrique Maria, o Zé Henrique, eu própria, o Tio Mário, a Tininha, a Tia Natália (Tátá) e, depois, outros mais novos. Apesar de uns serem sobrinhos e outros serem filhos de uma amiga (a Lininha - Avó Idalina) em nada eram estes diferenciados. Falavam deles com grande orgulho tendo as suas fotografias em lugar de honra em cima da cómoda do seu quarto. Posso testemunhar o quanto elas a todos amavam.

Agora é a vossa vez de contar as muitas histórias deste tempo passado no “77”, como nós chamávamos a esta “comunidade”. Pela minha parte, até posso referir uma história de amor que terminou em casamento e, por Graça de Deus, perdura até hoje. Recordo também as festas e os bailes que se organizavam com a total colaboração da Tias Ferreirinhas que se sentiam muito felizes por terem a gente jovem junto de si divertindo-se com todo o respeito.

Sem dúvida que esta convivência no “77” estreitou mais os laços que já uniam Melres a Lagares.

Mesmo antes desta convivência no Campo 24 de Agosto, já, na altura das férias, o Tio Fernando, o Tio Zé, o Tio Mário e até o Padre José Barbosa, passavam alguns dias em Penacidra a convite das minhas tias. Eram tempos de sã camaradagem em que participavam também a gente mais jovem da família Lopes (Maria Helena, Zézinha e Arturinho) que viviam no Porto, mas que todos os anos vinham passar uns tempos de férias a Penacidra, pois uma grande amizade ligava esta família às Ferreirinhas.

Estes são apenas alguns exemplos do espírito alegre, jovem e de grande doação das Ferreirinhas…

 

Tia Guida   

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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2006

A Travessia da Serra

Ainda com imagens frescas na minha memória sobre a última Travessia da Serra realizada no dia 23 de Setembro de 2006, decidi contar para os Primos OnLine a história desta “façanha” anual.

Mas, afinal, o que é a “Travessia da Serra” ? Todos os anos logo a seguir às férias um grupo de amigos fazem uma caminhada entre o centro da freguesia de Lagares - Penafiel e o centro da freguesia de Melres - Gondomar através da serra que separa as duas freguesias, popularmente chamada Serra das Cabrias e que pertence à Serra (ou Alto) da Pena Branca, segundo a Carta Militar de Portugal.

Trata-se de uma distância de cerca de 12 km feita por caminhos que, inicialmente, eram apenas trilhas de passagem a pé, muito íngremes e irregulares, usadas pelos mineiros que das freguesias de Lagares e Capela trabalhavam nas minas de carvão do Pejão. freguesia de Pedorido - Castelo de Paiva . A dificuldade deste percurso e as paisagens que nele se podem admirar torna-o muito motivador para todos os que gostam de conviver com a natureza, num ambiente de boa amizade e camaradagem. Porém outros motivos concorrem para que esta “Travessia da Serra” seja gostosamente esperada por um cada vez maior grupo de amigos.

Chegados a Melres, começa a segunda parte do desafio, à volta da mesa, onde todos, em alegre cavaqueira, se deliciam com os pitéus que cada um apresenta, refazendo assim as energias gastas na caminhada. Para muitos representa o encontro anual de grandes amizades onde se põe a “escrita” em dia e se recordam as peripécias e tropelias do tempo de infância e juventude.

Mas como terá começado esta tradição que já vai na terceira geração?

Teremos que recuar à década de 1940 e ao casal Aníbal e Maria Idalina, residente no lugar da Igreja - Lagares, pais do autor desta crónica, ele natural de Lagares e ela natural do Porto, mas residente deste muito pequena em Melres, onde possuía uma casa e uma pequena quinta e muitas amizades. Desde muito cedo, após o casamento da filha, veio viver com este casal a única avó que conheci, Maria José, ficando a sua casa em Melres fechada e a Quinta da Vergadas a ser trabalhada pelos caseiros Snr. António Cruz e Snra. Rosa.

Entretanto foram nascendo os filhos do casal e na altura do verão a minha avó e muitas vezes também a minha mãe, iam passar algum tempo à sua casa de Melres, levando consigo a prole, desde os que já podiam caminhar até àqueles que ainda não andavam ou não aguentavam toda a caminhada.

Nessa altura os meios de transporte eram escassos (anos da e pós II Guerra Mundial) e a ligação por estrada entre Lagares e Melres era muito longa e quase intransitável nalguns pontos. Restava, pois, a solução de ir de Lagares a Melres pelo caminho calcorreado diariamente mineiros, mas que só poucas pessoas conheciam bem. Os inexperientes corriam o risco de se perderem na serra.

Era uma operação logística complexa:

Por bilhete postal ou aproveitando o vaivém dos mineiros os meus pais enviavam um recado aos caseiros pedindo o seu apoio para esta deslocação familiar. Pelo mesmo meio lá vinha a resposta.

Na data marcada os caseiros saíam de madrugada de Melres e, vindo pela serra, chegavam a Lagares de manhã cedo para que o calor não fosse demasiado durante a viagem para Melres. Traziam em cestos alguns mimos da Quinta das Vergadas. Depois de os caseiros “matarem o bicho” com um bom naco de broa e uma isca de bacalhau acompanhados por um copito, estávamos todos prontos para iniciar a ida para Melres há muito esperada pelos mais crescidos, em especial pelo fascínio de ir até ao areio ver o rio e nele molhar os pés. Os meus irmãos mais pequenos lá iniciavam a caminhada a pé, mas ao fim de pouco tempo tinham que ser transportados às “cavalitas” ou então dentro dos cestos que os caseiros tinham trazido…

O ponto culminante do esforço era a subida da Serra da Cabrias, mas chegados lá acima sentíamo-nos orgulhosos do feito e entusiasmados coma paisagem. Em frente às Minas das Banjas, já na descida para o Chão-que-tropia, havia uma gruta onde fazíamos uma paragem para descansar um pouco e comer uma pequena merenda. O resto da caminhada fazia-se sem grande esforço e a recompensa chegava quando do alto das fragas de Vilarinho se avistava pela primeira vez o Rio Douro, curvando vagarosamente no lugar de Santiago.

Os dias de férias em Melres tinham um sabor especial: o rio com o seu grande areal(ou areio, como lhe chamavam), o entrar no barco que fazia a travessia de Melres para a Lomba, a vista do rio da janelas da casa de Melres com os barcos rabelos e barcos rabões (usados para o transporte do carvão das minas do Pejão) de velas enfunadas aparecendo na curva de Santiago, as juntas de bois pisando o areio e “alando” esses mesmos barcos quando não havia vento e rio estava baixo, as pessoas amigas da nossa mãe e avó que nos mimavam, o brincar com os filhos dos caseiros…

Acabadas as férias tínhamos a viagem de regresso feita em moldes semelhantes mas menos custosa pois a Serra das Cabrias era a descer…

Não admira que tudo isto tenha ficado no nosso imaginário de crianças a “puxar” para aquelas recordações.

Tive a sorte de vir a usufruir o reviver de tudo isto ao casar com a tia Guida nascida e criada em Melres, mesmo à berinha do Douro.

Foi, porém, o Tio Zé que deu os primeiros passos naquilo que viria a transformar-se na tradição da Travessia da Serra, recordando as idas a Melres, pela serra, da nossa infância.

Na década de 1970 e, sobretudo, depois do falecimento dos nossos pais (1978), o tio Zé juntamente com o Padre José Coelho Barbosa, grande conhecedor de todos os lugares e caminhos desta zona, e, mais tarde, também com o Padre Leal começaram a fazer caminhadas, algumas das quais até Melres, pela Serra das Cabrias. As recordações da infância começaram a despertar interesse por este último circuito entre os irmãos e outros amigos tendo-se realizado vários vezes durante a década de 1980, aproveitando os dias de férias que o Padre Barbosa passava em Lagares quando o seu trabalho de missionário o permitia.

A partir do início da década de 1990 o número de participantes foi crescendo e passou a tradição a cumprir-se anualmente, chegando a ser de cerca de 40 pessoas o grupo que fazia a Travessia da Serra. A este grupo juntavam-se mais cerca de 20 pessoas que por razões diversas não podiam fazer a caminhada pela serra mas não dispensavam o convívio que se vivia durante a tarde em Melres.

A segunda geração (nossos filhos e sobrinhos - os Primos Online) alinhou nesta tradição e a terceira geração está também a começar a acompanhar a “ferrugem” dos seus tios-avós, nesta aventura. 

 

Para a história fica o quadro com as datas em que se realizou a Travessia desde que o facto começou a ficar registado:

 

Ano

Data

Ano

Data

Ano

Data

1993

12 Junho

1998

Não se fez

2003

27 Setembro

1994

01 Outubro

1999

09 Outubro

2004

18 Setembro

1995

07 Outubro

2000

16 Setembro

2005

08 Outubro

1996

05 Outubro

2001

06 Outubro

2006

23 Setembro

1997

04 Outubro

2002

05 Outubro

 

 

                     

O texto já vai longo e haveria ainda alguns episódios interessantes a relatar. mas vou deixar isso para que os que neles participaram o possam fazer como comentários a esta crónica.

Termino referindo um desses episódios que deu origem ao logótipo do Clube dos Amigos da Travessia da Serra (CATS) há alguns anos informalmente criado.

Com o passar dos anos a geografia da serra e a sua paisagem foi-se modificando, pela pouca utilização das suas trilhas e pelos incêndios florestais que se iam sucedendo. Em cada travessia, era certo que em determinada altura do percurso surgia a dúvida sobre o caminho a seguir e, então, as mais diversas opiniões apareciam, nem sempre se chegando a um consenso, o que levava algumas vezes à fragmentação do grupo e às inevitáveis discussões e estratégias para a sua reunificação.

 

Tio Fernando
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Terça-feira, 27 de Junho de 2006

A minha estreia na Kreidler

Para os primos mais novos “Kreidler”, certamente, não lhes diz muito, mas para os tios Fernando, Zé, Mário e até para as tias Zinha e Tátá, este nome lembrar-lhes-á a bicicleta motorizada que o Paizinho  (avô Aníbal)  comprou  lá  pelo início dos anos 50.

Nessa altura foi uma grande evolução nos meios de transporte da família, pois o único que existia era uma velha “pasteleira” (assim se chamava às bicicletas de pedal, mais pesadas, sem mudanças e com o guiador em forma de rabiça de arado). Diga-se de passagem, que o Paizinho, em solteiro, já tinha tido um cavalo e uma pequena moto que não chegamos a conhecer.

A velha bicicleta era usada pelo Paizinho para ir, uma ou duas vezes por semana, a Penafiel pagar aos fornecedores e trazer alguma mercadoria mais necessária para a loja.

Cada viagem representava cerca de 30 km e o Paizinho já ia a caminho dos sessenta anos!!

Como admiro, agora, a sua resistência física e a sua força de vontade ao relembrar a sua chegada de Penafiel, muito suado, a descansar um pouco, bebendo um refresco de água com umas gotas de aguardente adoçada com açúcar amarelo, ou comendo uma boa talhada de melancia!

Mas não era o Paizinho o único utilizador da bicicleta. Um pouco às escondidas, mas com consentimento tácito, os tios Fernando e Zé iam, primeiro, aprendendo e, depois, dando as suas voltas na dita. Eram frequentes as quedas que, normalmente, davam origem a avarias. Algumas vezes os “criminosos” conseguiam repará-las, outras eram motivo de grandes ralhadelas e consumições quando o Paizinho pegava na bicicleta para sair e ela não estava em condições: “porco sujo, estragaram-me outra vez a bicicleta”, era a expressão mais comum.

Mas voltemos à nossa história. Um dia, grande foi a nossa admiração e alegria ao ver chegar o Paizinho montado numa bicicleta motorizada, a Kreidler.

Era uma “máquina” de 50 cc, ainda com pedais para auxiliar nas subidas mais íngremes, com duas velocidades e era alemã…(nesse tempo os produtos alemães eram considerados sempre de melhor qualidade).

A partir daí as atenções da rapaziada da família voltaram-se para a Kreidler. Sempre que o Paizinho saía, lá estávamos nós de olhos bem atentos para ver como tudo funcionava. Lentamente a curiosidade foi dando lugar a algumas investidas, a começar por tirar a Kreidler do descanso e levá-la, à mão, até à estrada onde esperávamos a chegada do condutor. Uns tempos depois, uma vez na estrada, e como a dita tinha pedais, já o tio Fernando e o tio Zé davam uma pequena volta na estrada, em frente da loja, enquanto não chegava a hora da partida. Mas a tentação era muito grande de pôr a Kreidler a trabalhar. Até que um dia o tio Fernando combinou com o tio Zé: “Vamos dar a nossa volta do costume com os pedais e contigo a empurrar, também. Quando o Paizinho aparecer, tu dás um empurrão mais forte e eu solto o embraiagem…”.

Assim aconteceu numa bela manhã em que o Paizinho se preparava para sair para Penafiel. Quando ele chegou ao portão, íamos nós a passar na sua frente: então, o combinado empurrão mais forte actuou, a embraiagem foi solta e a Kreidler começou a trabalhar levando o tio Fernando, muito senhor do seu papel, a dar uma volta à igreja e voltar, parando em frente do Paizinho com a “máquina” a trabalhar. Recordo o cara do meu Pai, meio zangado, pela desobediência, e meio orgulhoso pela “habilidade” do filho. Desta vez nem ralhadela houve.

Porém esta ousadia teve um bom preço. A partir daí o tio Fernando passou a fazer “recados” com a Kreidler: Era ir buscar farinha a Casconha quando ela faltava na padaria, era ir a Cête pagar uma letra à Casa Facas, era ir dar um recado a um músico, à Capela, para que não faltasse na festa do domingo seguinte.

Não posso deixar de dizer que pagava todo este preço com grande prazer.

A Kreidler teve uma longa vida, recebeu um assento amovível para um segundo passageiro, onde as tias Zinha e Tátá andaram várias vezes.

Foi envelhecendo e acabou por ser destronada, já no fim da década, pelo aparecimento do novo meio de transporte da família, o automóvel Austin A70    (OS-13-97), comprado em segunda mão. Avariou sem conserto e ficou parada muito tempo, até que se aproveitaram as suas rodas para um carro de transporte manual de botijas de gás...

Que boa recordação eu tenho da Kreidler!                                 

 

Tio Fernando

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Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Se soubessem como eu gosto de olhar as estrelas!

É engraçado que ás vezes, uma palavra que parecia ficar condenada ao esquecimento, pode fazer despoletar em nós anseios de escrever coisas belas.

Assim aconteceu, com as estrelas a que o Tio Mário se referiu, quando falou em sabonete lux.

Estas estrelas lavam-se como quiserem e com o produto que para si escolheram. E, por falar nisso aproveito para avisar que olhem bem para a composição dos vossos produtos de higiene e vejam se contêm uma substância química chamada Lauril Sulfato de Sódio. É muito usada nestes produtos, pela facilidade que tem em produzir grande quantidade de espuma. Cuidado amigos! Dizem que é cancerígeno!

 

Já me estou a desviar da minha estrela, afinal um simples sabonete quase me desvia da rota que me propus alcançar. Esse mundo fantástico das estrelas, aquelas que a minha vista consegue descortinar na noite e, cintilam, com a mesma magia, de uma imensidão de velas acesa por mão humana.

As estrelas conseguem levar-me a um estado de alma que me consola, quando por vezes um sentimento, geralmente de saudade, me faz doer bem no fundo da alma.

 

Debruço-me à janela do meu quarto (mais em Melres), olho o monte, o rio e o céu, e alguma estrela que me pareça mais especial. Através dela consigo abranger o infinito e, por momentos falar com aqueles que amo, mas não estão fisicamente junto de mim.

 

Começa então uma oração que me consola e me dá força. A beleza da paisagem que se apresenta diferente no mistério que envolve a noite, não dá medo, apazigua e envolve-nos também nesse mistério de Infinito que nos transcende e, ao mesmo tempo está tão perto de nós.

 

Sempre costumo a utilizar as estrelas para falar aos meus netos, de realidades que eles ainda não entendem.

Jamais esqueço a noite em que morreu o Albano, o filho da Adelaide e do Castro.

A Margarida estava connosco e apercebeu-se que alguma coisa triste se passava…falhei-lhe nas estrelas e disse-.lhe:

“Vês Margarida o Albano está naquela estrela!”

Era a primeira que aparece no céu, a Sirius.

Então a Margarida com uma batata frita na mão faz um gesto de oferta em direcção à estrela:

“Albano queres batatas fritas?

“ Olha Vó, estou a ver uma perna do Albano!”.

Ainda consegui fazer rir a Adelaide!

Benditas crianças e benditas estrelas que tão bem mostraram o caminho aos Reis do Oriente! Estrela que os havia de levar a uma criança que, não é mais nem menos que o dono de todas as estrelas.

 

Tia Guida

 

Ofereço à Rita este post,  neste dia do seu aniversário, com um beijo muito amigo. Continuo a pedir para ela uma Estrela especial a iluminar o seu caminho. Parabéns!

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Sexta-feira, 2 de Junho de 2006

A propósito da dobrada à moda do Porto

Onde descobri "a dobrada à moda do Porto"? Ora, meu Zé, se tu não te lembras, que direi eu, que tenho uma memória de grilo? Tudo o que leio esqueço. Não a palavra, mas as palavras. Restam-me os sons, os sabores, os cheiros, as cores e o calor que me aconchega o corpo. Quando tenho saudades, só me resta ir de novo em sua busca. E vou. O mais das vezes, por caminhos esconsos. Não sou selectivo. Nos montes de estrume também há vida e paixão.
 
Vou vagabundeando, “por aí”, por entre livros papel bíblia, versões avulsas de algibeira, edições cuidadas da Deutsche Gramophone e gravações miseráveis em mp3 . Não sou um intelectual. Se o meu coração bate forte, deixo-me ficar. Não importa onde. Leio, ouço, sonho. E parto de novo, pobre Sísifo desmemoriado, à procura incessante das palavras e dos sons que teimam em me fugir.
 
Soma-se a isso uma mania, quase obsessiva, de chegar às coisas das formas mais inusitadas. Se bastava ter dado meia volta para logo ter nas mãos o Álvaro de Campos, por que razão o fui procurar eu nos meandros pouco seguros da WEB ? É a forma vagabunda e desleixada de quem não se lava e que, pouco a pouco, se vai apoderando de mim.
 
Peguei no Pessoa de lombada dourada e busquei o índice.
Como pude ser enganado?!
Mas quem mais seria capaz de falar de amor, quando fala de dobrada?!
 
- Desculpa, Rui. Já passa da meia-noite. Vou direito ao assunto. O que te diz uma dobrada à moda do Porto, cozinhada pelo Álvaro de Campos.
Do lado de lá comecei a ouvir: “Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo...”.
De facto, lá estava ele na página 418, com o número 537, da edição de 1972. A outra edição, a que anteriormente tivera acesso, essa deve pairar agora nas mãos de um outro sonhador que, disfarçado de Juiz, paira agora no Tribunal Europeu de Justiça desta Europa desvairada. E, por isso mesmo, por mim cada vez mais amada.
 
Sou um incorrigível.
 
 
Tio Mário
música: Nocturne in E flat major op 9, Chopin
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Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

Postal da Finlândia

 
Não, não vou falar dos almoços, dos jantares e das recepções. Das pessoas importantes que, na Finlândia, são praticamente todas mulheres: a presidente da República, a presidente do Parlamento, a presidente do Supremo Tribunal de Justiça (k linda, meu Deus!), a Ministra da Justiça, a Provedora de Justiça, etc, etc.
Vou descrever o essencial deste país amável, equilibrado e cheio de futuro.
Por alguma coisa está na moda.
O Tio Mário encarregar-se-á, como sempre, dos mapas, da música e de tudo o resto (que é a maior parte) que eu não domino.
A Finlândia (338.145 km quadrados, 190.00 lagos, 100.00 ilhas, 5.220.000 habitantes)  passou mais de 6 séculos sob o domínio sueco.
Foi, depois, um grão-ducado autónomo da Rússia (entre 1809 e 1917)
Só tem, portanto, 90 anos de independência.
É climaticamente um país de extremos. A amplitude térmica pode ultrapassar 80 graus durante o ano. No norte, passa-se mais de 50 dias sem ver o sol, no Inverno, mas, no Verão, o sol não se põe durante 2 meses.
A proporção de estrangeiros é das mais baixas da Europa, o que me foi explicado com o clima e a dificuldade da língua. O finlandês é uma língua que não tem paralelo na Europa, salvo, quanto à complexidade, o húngaro.
Na Finlândia, há duas línguas oficiais: o finlandês e o sueco.
Nas escolas, a aprendizagem de línguas estrangeiras (como, mais recentemente, as novas tecnologias) é uma das chaves do grande sucesso educativo. Ensinam-se, nas escolas, seis línguas estrangeiras.
Não encontrei vivalma que não falasse um inglês perfeito.
Os finlandeses adoram o "sauna".
Um dos nomes mais famosos da arte é o grande compositor Sibelius.
O "ouro verde" da Finlândia era a floresta. Agora são as indústrias de alta tecnologia. Lembram‑se de um portátil chamado Nokia?
Salários:
O salário médio é de 2304 euros por mês. Um empregado de balcão ganha 1554, um motorista de autocarro 2159, um professor 2512, um gerente industrial 4126, um médico 5443.Os top executivos ganha mais…ora, pois…
As horas de trabalho são 37,5 por semana. As férias pagas são 1 mês no Verão e 1 semana no Inverno.
As clínicas de maternidade e de cuidados materno-infantis são gratuitos. O parto custa menos de 100 euros.
O abono de família é, para um menor de 17 anos, entre 100 e 172 euros mensais.
O ensino é gratuito. Ensino obrigatório, 9 anos, secundário 3. No obrigatório, os alunos têm almoço grátis. Não o bife com batatas fritas mas um prato com pasta vitaminada que, pela fotografia, não agradaria, em Portugal, nem ao Menino Jesus.
Todos os finlandeses têm um seguro de saúde. Uma consulta médica custa no máximo 22 euros. A média de uma consulta de odontologia é de 7 euros. Um internamento hospitalar custa 26 euros por dia. A partir de 590 euros de despesas anuais de saúde, tudo é gratuito.
O subsídio de desemprego, durante os primeiros 500 dias, é proporcional ao salário. Para os salários mais baixos é de 90 por cento, para os outros de 60 por cento.
Os pobres (disseram-me que os há) têm um rendimento mínimo de 362 euros. As pessoas com poucos recursos recebem uma ajuda para habitação de 200 euros por mês.
A idade da reforma é de 63 a 68 anos, mas, na prática, as pessoas procuram reformar-se aos 60.
A pensão de reforma é, em geral, de 60 por cento do último salário, na média 1027 euros, com um mínimo de 505 euros.
A segurança social é financiada a 40 por cento pela entidade patronal, a 10 pelos trabalhadores; a parte restante é financiada por impostos nacionais e municipais.
Na Finlândia, há cerca de 400.000 casas de férias: dispersas, sóbrias e de madeira.
Dos meus amigos finlandeses, retenho a sua cultura, capacidade de trabalho e uma simplicidade que raia a timidez. Explicam-me que são assim porque os seus ancestrais viviam isolados, nas ilhas ou nas florestas, e raramente contactavam com o "mundo".
Vale a pena ir à Finlândia? Siiiimmmm…
Um passeio à Lapónia? Porque não?...
Ah, já me esquecia.
Um segredo para os caganitos: o quartel do Pai Natal situa-se exactamente aí, na Lapónia. Uahhh!...
           
Tio Zé

Europa dos 25

música: Valse Triste, Sibelius
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Domingo, 21 de Maio de 2006

Shakespeare on blog

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo.
Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser.
Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto.
Aprendes que, ou controlas os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências.
Aprendes que paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste.
Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates. Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso...
Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado.
Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores.
E aprendes que realmente podes suportar mais... que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!
As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."
 
William Shakespeare
Queridos tios e primos,
Aqui fica um texto que me diz muito.
Ainda temos muito que aprender e talvez não consigamos aprender tudo, mas crescer é isso mesmo... Que o texto seja inspirador e uma homenagem a tanto o que nos podem dar e nos  têm dado os nossos "marretas" (a expressão é do Tio Mário...).
Muitos beijos.
Paula
música: Whiter Shade of Pale - Procol Harum / The Shadows
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Quinta-feira, 18 de Maio de 2006

Os salões dourados das Filarmónicas Vienenses

Os comentários que têm sido escritos, deixam-me, por vezes, sem jeito.
Ele é “a técnica de som e efeitos sonoros”, ele são “as novas tecnologias”, ele é o “não sei onde este Blog irá parar”, ele é até “um canal de televisão da família”...
 
Ah! Se soubessem os arames com que está construído este mundo de fantasia!
E se soubessem o sofrimento nele encerrado!...
Vá. Deixem-se de elogiar as minhas capacidades técnicas. Não fico feliz por isso.
O meu sonho está para além das habilidades circenses que possa ou saiba exibir.
Não me quero iludir, nem ser iludido. A técnica sem paixão, engenho e arte não é nada. Mas, má sina a minha. O que me sobra em paixão, falta-me em "engenho e arte".
E, apesar disso, todos os dias fico deslumbrado com os seus segredos.
Ponho-me a imaginar o que faria com eles um Bach, um Mozart e tantos outros, Santo Deus. E mesmo eles, no seu tempo, não passaram de criados bem pagos para entreterem os seus senhores. Sucediam-se as vénias, as lisonjas o embasbacamento perante o seu virtuosismo, mas a beleza da suas obras era-lhes, o mais das vezes, completamente indiferente.
 
Duzentos e tal anos depois, nada se modificou.
 
A Igreja da Lapa estava cheia.
Nas filas da frente, as peles do costume. Os beija-mãos. Os focos da televisão. Os sorrisos de encomenda. Os “faça favor colega, por quem é?” Os “venha cá, Lili, dar um beijo ao Sr. Doutor”
 
Numa das bancadas laterais construídas para o efeito, um jovem, dos seus vinte e poucos anos, lia com ar compenetrado o folheto que lhe tinha sido distribuído à entrada.
 
Na zona do altar-mor perfilavam-se o coro e a orquestra.
 
As luzes da nave central apagaram-se. Por momentos as pessoas mexeram-se e tossiram nervosas, enquanto se faziam ouvir, ao sinal do primeiro violino, os sons aparentemente desconexos da orquestra à procura da afinação.
O maestro entrou em cena.
Houve palmas.
Fez-se silêncio.
A um gesto do maestro, a orquestra atacou o Introitus do Requiem de Mozart, imediatamente seguida pelo coro. Sucederam-se-lhe, como descrito no folheto, o
 
II - Kyrie
III. Sequentia
1 - Dies irae
2 - Tuba mirum
3 - Rex tremendae
4 - Recordare
5 – Confutatis
6 – Lacrimosa
IV. Offertorium
1 - Domine Jesu Christe
2 - Hostias
V. Sanctus
VI. Benedictus
VII. Agnus Dei
VIII. Communio
 
Só tomou consciência de si quando irromperam os aplausos.
 
De novo o mesmo corrupio do início, as mesmas peles a agitarem-se, os mesmos beija-mãos e todos os salamaleques costumeiros.
 
- Os meus parabéns, Monsenhor António. O concerto foi divinal. Não fosse o senhor e esta cidade seria um deserto cultural. Aproveitei para lhe trazer o cheque para a compra do novo órgão. Ao que oiço dizer, vai ser o maior da Europa. É pena que não tenhamos gente para o tocar. Mas que vai causar inveja, lá isso vai.
 
- Ó Lili faz um adeus à câmara.
 
- Então por cá colega?! Nem sabe como tenho saudades dos tempos em que ia com a Quicas aos Festivais de Salzburgo. Mas agora sou um homem de negócios e, como compreende, não se pode brincar com milhões...
 
- Para ser sincero, colega, eu até passei pelas brasas. Mas se não venho, ainda vão dizer no partido que sou um segundo .... (e cochichou-lhe qualquer coisa ao ouvido). Sabe de quem estou a falar...
 
A Igreja começava a ficar vazia. Olhei para o lado.
 
O mesmo jovem continuava sentado, absorto. Estranhamente o requiem trazia-lhe uma paz interior que nenhum xanax lhe poderia dar. Era vida e não morte o que sentia.
 
Só então compreendi que o coro e a orquestra tinham estado a actuar para uma só pessoa.
 
Saí sorrateiramente. Não queria ser visto. Sentia-me diferente, embora igual a todos eles.
  
Esta cena havia de repetir-se, anos mais tarde, em Viena de Áustria, embora, de forma diferente, como irão ver.
 
Estava eu em trabalho. O colega que me acompanhava queria aproveitar a oportunidade para ir ver a actuação da Escola de Equitação Espanhola. Ora eu, que nunca fui entendido nas artes equestres, nem acho os cavalos particularmente inteligentes, comecei por não aceder ao seu convite. Irritava-me ver aqueles animais, de porte imponente e soberbo, a obedecer às ordens duns imbecis, quando poderiam resolver o assunto de uma só assentada, com um par de coices bem mandados.
 
Inteligentes são os burros. Inteligentes, e com personalidade. O primeiro que os puser a saltar obstáculos num hipódromo, ou a dançar ao som de uma fanfarra, vai receber o prémio Nobel da imbecilidade humana.
 
Como dizia eu, o problema estava em acompanhar, ou não, o meu colega à Escola de Equitação Espanhola.
 
De repente fez-se luz.
 
- Ó Zé, eu vou ver os cavalos, se tu amanhã me acompanhares à sala de concertos da Filarmónica de Viena.
 
- Negócio fechado
 
E lá partimos os dois para a Escola de Equitação.
 
Foram 2 horas de sofrimento para mim e penso que para os cavalos também.
 
Tudo certo. Certo demais até. Nem um pinote, nem um coice que pusesse a ilustre assistência em alvoroço e o picadeiro de pantanas. Pobres bichos. Bem mais tratados e felizes eram os cavalos selvagens do Gerês.
Mas eu tinha que merecer o concerto do dia seguinte.
 
Eram 7 horas da tarde. Magotes de rapazes e raparigas de calças de ganga, alguns deles com sacos de plástico na mão, iam entrando para a sala de concertos. Eu e o meu colega, encafuados nos nossos fatos de executivos, destoávamos nitidamente. “- Mas que diabo, pensava eu. Não é todos os dias que se vem a uma sala de concertos destas”. Até uma camisa nova comprei para o efeito.
 
Entrámos. Fiquei embasbacado a olhar para a sala dourada e a pensar no meu íntimo: “Quando a Televisão transmitir o próximo Concerto de Ano Novo vou poder dizer: - Já estive nessa sala”. E antevia com gozo indisfarçável a cena do meu interlocutor a encolher-se todo, perante tão refinado "connaiseur".
 
Saí com a expressão do habitué destes locais de culto. Olhei ao meu redor e vi os mesmos magotes de rapazes e raparigas a dispersarem-se pelas ruas da cidade com o ar mais natural deste mundo.
 
Só então compreendi que, desta feita, a orquestra tinha estado tocar para todos, menos para mim.
 
Regressei ao hotel. Senti-me envergonhado e diferente de todos os outros. Agora por razões opostas.
 
Melhor ser um ouvinte apaixonado, num qualquer lugar perdido no mundo, do que um connaiseur pesporrente, num salão dourado de uma qualquer Filarmónica Vienense.
  
Com um beijo muito especial para os caganitos
     
Tio Mário
 
 
música: Johann Strauss,Radetzky Marsch,Karajan&Wiener Philharmonike
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Sábado, 6 de Maio de 2006

Foguetes bioquímicos

Não, não é aquilo em que, porventura, está a pensar…

No tempo da nossa mocidade, em Lagares, entre as festas populares que lá se realizavam, sobressaía a festa da Senhora da Lapa, no dia 8 de Setembro, qualquer que fosse o dia da semana. Dia feriado na aldeia. Era esperada com grande ansiedade, mas ao mesmo tempo com alguma tristeza pelos criados e jornaleiros dos lavradores, pois nesse dia terminava o direito ao descanso da sesta.

Mais tarde, por razões de disponibilidade das “pessoas que trabalhavam no Porto” esta festa passou a celebrar-se no dia 8 de Setembro ou no domingo seguinte, caso esse dia fosse um dia de semana.

    Para a rapaziada da minha idade, a coisa que mais nos impressionava era a preparação e o acendimento dos morteiros (tubos grossos de ferro, tapados numa das extremidades, cheios com pólvora, comprimida com “pedra do monte” a golpes de marreta), que explodiam no adro da Capela da Lapa durante toda a semana anterior à festa, ao meio-dia e ao fim da tarde, para anunciar as grandes festividades.

Mas havia ainda outro acontecimento que nos deixava maravilhados! O lançamento dos foguetes no dia da festa. Havia especialmente três momentos em que a grande perícia do fogueteiro, Senhor Jusberto, encarrapitado no beiral duma das capelas dos “passos” do Senhor, era posta à prova e mais apreciada: Na Missa, durante a Consagração, no final da Procissão e à noite, na sessão de fogo de artifício (foguetes de lágrimas, como lhe chamavam na aldeia).

Com todos estes estímulos não era de admirar que eu e os meus irmãos, nos dias seguintes, quiséssemos fazer algo parecido.

Era tempo de férias, a imaginação era posta a funcionar e, as brincadeiras de foguetes e morteiros aconteciam …

Em nossa casa havia vários gatos que andavam livremente pela casa e pelos campos anexos, com a especial protecção da Mamã que sempre gostou muito de animais. Por acaso, o Zeca (Tio Zé) descobriu que ao atirar um desses gatos ao chão, qualquer que fosse a forma usada, ele caía sempre com as patas para baixo. Resolveu então atirá-lo do pátio da cozinha que ficava  a cerca de 4 metros de altura do chão, para ver se continuava a cair com as patas para baixo, ficando portanto em pé. E assim fez!

Para grande espanto nosso, não só o gato chegava ao chão e ficava sempre de pé, como durante a descida, bufava valentemente, o que imitava um foguete a subir. Estava descoberto o foguete reutilizável!

Vai daí, a sessão “pirotécnica” repetia-se várias vezes com grande algazarra nossa, pois, o bicho ao cair daquela altura, meio atordoado, ficava de pé mas não fugia logo, o que dava tempo para o Marito (Tio Mário) o agarrar de novo e levá-lo ao fogueteiro que “na maior” lançava mais um foguete.

A sessão continuaria até que “o gato deixasse de bufar de vez” se não fosse o aparecer a Mamã que, com um grande raspanete, pôs fim àquela “tortura”. Pegando no bicho levou ao colo para longe daqueles “mafarricos”.

Mas o encantamento da festa continuava! E é então que o Nando ( Eu, Tio Fernando) toca a por as suas engenhocas a funcionar.

Devia ser possível fazer morteiros caseiros?! Na loja do Paizinho (Avô Aníbal) e onde também trabalhava o Padrinho, assim chamado por todos nós, (Tio-Avô Abel), vendia-se um pouco de tudo. Nessa altura não havia energia eléctrica na aldeia e a iluminação era feita ou com candeeiros de petróleo ou com gasómetros que trabalhavam a acetileno (obtido pela reacção química do carboneto de cálcio com água).

O Nando vai à loja, ao latão onde se guardava o carboneto, surripia uma pequena pedra do mesmo, procura uma lata de tinta vazia, mete a pedra lá dentro, deita-lhe umas gotas de água e fecha a lata  com a tampa bem apertada com um martelo. Coloca a lata no chão, no meio do campo, ficando a observar a alguma distância.

Oh! Maravilha das maravilhas! Passados uns instantes, um grande estrondo se ouviu e a tampa da lata foi pelos ares atingindo grande altura. Todo ufano pela descoberta, fui contar ao Zeca e ao Marito que, imediatamente, quiseram ver o “morteiro da Senhora da Lapa”, como eu lhe chamei.

Mais uma ida, às escondidas, ao latão do carboneto e novo rebentamento se ouviu, com grande admiração dos meus irmãos que tapavam os ouvidos com as mãos, mas prontos a procurarem a tampa da lata para que se repetisse tão fascinante acontecimento.

Porém, o “tiro” tinha sido tão estrondoso que foi ouvido pelo Paizinho dentro da loja. Veio ver o que se passava e descobriu o que andavam a fazer aqueles diabretes. Uma valente “ralhadela”, confiscação dos objectos do “crime” e, claro, a explicação do perigo que estávamos a correr. E, para que novas ideias não fossem postas em prática imediatamente, o Nando, nesse dia, foi mandado para a loja pesar arroz e açúcar em sacos de quilo.

Assim decorriam aqueles dias felizes das nossas férias…

Espero que neste momento já tenha conseguido entender o título desta crónica.

 

Tio Fernando           

música: Peter Tschaikowsky - Ouverture solennelle 1812 (final)
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Terça-feira, 25 de Abril de 2006

Conversa desatinada

 

Tudo começou por ser um breve comentário à crónica “Desafio de vida”, mas acabou por desaguar nesta carta aberta, amálgama de ideias e sentimentos.

 

Obrigado, Luís, pelo seu testemunho. Sobretudo pela transparência e convicção das suas palavras.Se o seu testemunho fosse de sentido contrário, de igual modo eu lhe diria obrigado. Em que ficamos, então?!

 

Casais divorciados ou famílias unidas?!

 

Crentes, agnósticos ou ateus?!

 

É irrelevante.

 

Deus - que nunca ninguém viu (1) – não se vai importar com o número de casais divorciados ou de outras tantas famílias unidas, mas vai com certeza deixar cair uma lágrima pela incapacidade de uns e outros se amarem.

                         

Crentes, agnósticos ou ateus - prisioneiros da nossa condição humana - Deus não vai querer saber dos nossos rituais ou lutas para nada, mas sim da convicção com que assumimos o nosso próprio caminho.

 

E daí o respeito e a admiração pelo seu testemunho.

 

Gostava ainda de lhe dizer, à laia de desabafo, que cada vez mais tenho a impressão de ir descobrindo Deus onde exactamente Ele não está. Ora aí está uma boa definição daquilo que eu sou. Desatinado. Mas, em todas as famílias há os certos, os certinhos e os desatinados...

 

Mudando de partitura. Apreciei a simplicidade com que descreve a descoberta de que um instrumento, aparentemente arredio dos rituais litúrgicos – o que não é verdade – nos pode afinal conduzir a momentos de grande interioridade.

Mais uma vez as coisas estão onde parecem não estar. Os compositores, sobretudo os do período barroco sabiam-no bem, para já não falar do seu uso nas cerimónias bíblicas no Templo de Jerusalém, ao lado do shofar .

Para que não me acusem de falsa erudição sobre assuntos bíblicos que não domino, da existência do shofar sabia eu há muito tempo. Já, quanto à utilização do trompete nessa época, talvez eu não esteja “a mentir bem”.

 

Sem a aventura em que o João e a Celsa se meteram, eu não estaria para aqui a perorar. Para eles o meu abraço com o desejo que o seu amor “não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, como dizia Vinicio de Morais. E que dure sempre, acrescento eu.
     

Tio Mário

                       

                                                           

 

(1) Porque não quero afrontar gratuitamente a fé de ninguém, junto sustentação para este aparte:

 

·         Se alguém diz: eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu. (I João 4:20)

 

·         Com efeito, ninguém jamais viu a Deus tal como Ele é em Si mesmo (Carta Encíclica Deus Caritas Est do Sumo Pontífice Bento XVI, parte 17)

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