Quarta-feira, 5 de Julho de 2006

Crónicas do Luxemburgo - XI

A árvore do macaco

 

(Para a Catarina, a Bibi, o Nunocas

e todos os priminhos on line)

 

A Catarina e a Bibi conhecem a árvore.

Fica a cinquenta metros da presa dos Vasos e está assinalada com um risco. Fi-lo com um graveto.

Vão visitá-la que vale a pena.

A Catarina e a Bibi já conheciam os factos. Mas, naquele dia, hesitei alguns minutos até localizar a árvore.

Consegui. Trata-se de um pinheiro.

A Catarina propôs imediatamente:

"Zézé, põe uma marca para não nos voltarmos a perder!".

Assim fiz.

Quanto à história é, como sempre, pura realidade.

Num Outono doce de há muitos anos, constou, em Lagares, que um ser estranho percorria os montes, de noite, guinchando e saltando, veloz, de árvore em árvore.

Umas pessoas apostavam que era um monstro; outras temiam que fosse o diabo.

Dizia-se que era preto, peludo, com olhos brilhantes e focinho de gente.

Os lugares onde o bicho (ou pessoa? ou lobisomem?) aparecia variavam.

Havia quem o tivesse visto a passear no monte da Senhora Aninhas, a rolar pela ribanceira do campo da bola, a beber água no fontanário, a dançar no meio da estrada ou a saltar de árvore em árvore que era a história mais corrente.

Ninguém, no entanto, se atrevia a aprofundar a questão.

Os mais afoitos ousavam:

"Amanhã, pego numa forquilha e vou por aí acima!".

Mas é o ias.

"Então, Senhor António, o que é que encontrou?

"Ai, é verdade, não pude ir. Esqueci-me que tinha a feira. Fica para a semana…".

Outros eram mais sinceros:

"Não sou dos mais medrosos. Mas com esses bichos, monstros, diabos ou lá o que é, não me meto. Ainda outro dia, em Recarei, o maquinista do comboio ficou assombrado e tolhido com um bruto (queria dizer vulto) destes!".

"Então, tu acreditas?".

"Nem acredito nem desacredito. Com coisas sérias não se brinca!".

O Tio Manuel (pai das primas Isabel e Odete) era um homem destemido e corajoso. Onde lhe constasse que existia bicho ou coisa estranha, aí estava ele. Um dia, contarei a história dos quatro raposinhos que me trouxe de presente.

Pois, logo que o Tio Manuel soube que o tal bicho-fantasma andava por aquelas paragens, anunciou aos quatro ventos que, no dia seguinte, de manhã cedo, iria, com o moço (o criado da lavoura), ver o que se passava.

Chegado perto da presa dos Vasos, o Tio Manuel ouviu uma espécie de gargalhada vinda do cimo de um pinheiro e tomou os devidos cuidados.

Encostou-se a um eucalipto e pôs-se a observar.

Não teve dúvidas.

Era um macaco. Estava encavalitado em cima do pinheiro, a comer descansadamente uma noz que tinha apanhado numa nogueira.

O Tio Manuel disse para o moço:

"Vou apanhá-lo!"

E, com muita calma, subiu pelo pinheiro acima.

O macaco permaneceu onde estava, com a maior tranquilidade. Olhava o Tio Manuel de soslaio, com curiosidade, como a querer dizer:

"O que anda este senhor a fazer por estas bandas?".

Mas nada mais.

Porém, quando o Tio Manuel chegou ao topo do pinheiro, o macaco deu uma gargalhada e, zás, saltou para outra árvore: um carvalho.

O Tio Manuel desceu pacientemente o pinheiro e subiu, com agilidade, pelo carvalho acima.

Mas a cena repetiu-se. O macaco calculou a distância e, quando o Tio Manuel lhe ia deitar a mão…pumba…saltou para um sobreiro.

E, por aí adiante.

Então, o Tio Manuel teve uma ideia.

Disse ao moço:

"Vai buscar meia dúzia de pessoas!"

E assim foi.

Vieram seis rapazes e o Tio Manuel estabeleceu inteligentemente um plano:

"Cada um de vós sobe até ao cimo das árvores que rodeiam aquela em que está sentado o macaco e fica lá. Se o macaco saltar para essa árvore, é só apanhá-lo, pois o animal não é feroz".

Mas o Tio Manuel não contou com a esperteza do bicho.

Todos a postos. O macaco no galho de um pinheiro, a mastigar distraidamente uma avelã, e aí vai, vitorioso, o Tio Manuel.

Estava a vinte centímetros do bicho e já estendia a mão para o agarrar quando este cuspiu a casca da avelã e desferiu uma tremenda bofetada na cara do Tio Manuel.

O Tio Manuel não teve tempo para reagir. Deslizou pelo pinheiro abaixo, como um gato, com a mão na cara e visivelmente surpreendido.

"O safado saiu melhor que a encomenda!", comentavam todos.

Ninguém, no entanto, pensou usar de violência.

O macaco era um animal praticamente desconhecido em Lagares mas os que tinham ouvido histórias de macacos só podiam achar piada às suas tropelias.

Ora, estes acontecimentos tinham-se propagado e, nas freguesias vizinhas, falava-se à boca pequena de todas as peripécias.

Foi então que o carteiro de Paço de Sousa, o Senhor José, trouxe a última novidade e a chave do problema.

O macaco era o macho de um casal de macacos que viviam na Quinta da Pena.

Tinham vindo de África. Viviam na maior harmonia e foi o desejo de conhecer mundo que levou Adriano (era assim que se chamava o macaco) a escapulir-se.

Era possível que, se trouxessem ao local a fêmea, Adriano abandonasse as acrobacias, descesse da árvore e se deixasse apanhar.

Mas nem foi necessário tanto.

Chegada a macaca aos Vasos, o "marido" sentiu a sua presença, deu um guincho de satisfação e desceu rapidamente do pinheiro em que se encontrava.

E, depois, foi o que se viu.

Deram a mão um ao outro e resolveram voltar a casa.

Formou-se um verdadeiro cortejo nupcial: o casal de macacos e o povo que alegremente os quis acompanhar até Paço de Sousa.

Consta, mas aqui limito-me a narrar o que me foi referido, que os dois macacos ouviram um grande ralhete dos donos. E que, logo a seguir, foram mimoseados com um lauto almoço, tal era o contentamento de toda a gente.

Quanto ao Tio Manuel, não ficou ressentido com a bofetada que apanhou e até achou graça.

Mas não deixou de desabafar:

"Para a próxima, já sei que um macaco em cima de uma árvore é um senhor!... Merece respeito!".

Tio Zé

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Segunda-feira, 19 de Junho de 2006

Crónicas do Luxemburgo - X

Uma figura inesquecível

 

 Imaginem um homem naquela época "velho", mas agora (que tenho a mesma idade) na "flor da vida".

Digamos sessenta e tais.

Um metro e cinquenta e poucos, grandes bigodes retorcidos na ponta, tez morena, olhos azuis piscos, cabeleira farta a cair sobre a testa e uma voz grave e roufenha.

Vestimenta: botas desfiguradas pelo uso, calças surradas, um colete de onde pendia um relógio de bolso preso por uma corrente (aparentemente de ouro), um casaco com o forro dos bolsos de fora e dois ou três lenços tabaqueiros que espreitavam. Uma bengala improvisada de pau de marmeleiro.

Fumador inveterado.

Sejamos fiéis à história. A maior parte do tempo não o dedicava ao fumo mas a enrolar a mortalha e a humedecê-la, com duas ou três passagens pelo lábio inferior, funcionalmente descaído pela repetição da operação.

Era o Senhor Armando de Ordins.

Pertencia a uma família considerada (os Nogueiras).

Não sei se por ascensão ou por queda social, exercia a honesta profissão de sardinheiro.

A partir de certa altura (foi já nesta fase que o conheci), a venda era feita pela mulher e pelos filhos e o Senhor Armando entretinha‑se a bebericar, pelas lojas e tabernas.

Era homem de poucas palavras, correcto e cheio de humor.

Combatente da 1ª Grande Guerra e "gaseado". Como ele se orgulhava de dizer, "esgazeado da guerra".

Encontrá-lo sóbrio só aos alvores da manhã.

Quando chegava a nossa casa, já tinha feito várias "visitas".

Tinha com o nosso Pai uma relação de intimidade e respeito.

Depois de dois quartilhos, ele próprio pressentia que iria passar a uma fase superior de "luta".

Desatava os lenços tabaqueiros e punha todo o dinheiro em cima do balcão:

"Aníbal, toma conta, que é para eu não perder!".

A partir desse momento, era natural que os restantes quartilhos fossem cuidadosamente misturados com água, ao que ele parecia indiferente.

A cada trago, continuava a estalar a língua na boca e a piscar o olho:

"Que pinga!".

Assumia, com humor, as agruras daquele destino, como daquela vez em que, no regresso a casa, não conseguiu ir além da presa dos Vasos e por aí se alojou, imaginando que estava na cama. "Estás mais áspera, hoje, Maria!", filosofava, enquanto estendia a mão e apertava um molho de silvas.

Recordo-me de algumas cenas exemplares.

A mais relevante aconteceu quando fomos a sua casa pedir para a festa da Senhora da Lapa.

O Senhor Armando foi buscar uma velha bota da tropa de onde retirou uma nota muito sebenta de vinte escudos (era dinheiro, ao tempo!…).

A propósito da bota, contou um episódio da guerra, em que se misturavam as boas relações que tinha estabelecido com os alemães (dizia "alemões"), a protecção divina e a vida nas trincheiras.

Contava ele que a Cruz Vermelha fornecia aos soldados, entre outras coisas, sabão. "Nazaré", referia ele "para os alemões entenderem".

Os soldados trocavam, com os alemães, sabão por pão.

Abriam-se formas gestuais de mercandejar.

Um dos braços significava a medida, outro a quantidade.

O Senhor Armando esticava o braço esquerdo e oferecia "Nazaré" (sabão) e apontava, com o outro braço, cinco centímetros a contar da mão. Pedia em troca brot (pão em alemão, que ele pronunciava "bruto") e indicava 40 centímetros do braço-medida, quase até ao ombro.

O alemão acenava que não e propunha:

"Bruto" (mostrava 10 centímetros de braço), "Nazaré" (media 30 centímetros).

O acordo fixava-se frequentemente na mesma proporção de braço para o sabão e para o pão ("Nazaré"/"Bruto")

O Senhor Armando doutrinava, depois, sobre a fé e o esforço humano.

Em plena trincheira, a artilharia pesada assobiava por cima e os soldados rezavam e chamavam pela família:

"Ai, Nossa Senhora, ai minha mãezinha!".

O Senhor Armando não.

Decidia, antes das rezas, vir cá fora e "calcular a p. da vida".

Ora, um dia, no exacto momento em que vigiava o horizonte, ouviu um tiro de canhão que lhe fez voar metade da "canhota" (a espingarda) e "limpou" todo o pelotão.

O Senhor Armando foi verificar os estragos e o que encontrou foram despojos humanos e um ou outro gemido de agonizantes.

Agradeceu, agora sim, a Nossa Senhora.

Outra história passa-se já na segunda grande guerra.

O Senhor Armando vai ao Porto visitar uma filha que aí trabalhava como criada de servir.

Levava um salpicão, um pedaço de broa e um garrafão de cinco litros para as primeiras necessidades.

Na estação se S. Bento, o guarda-fiscal perguntou-lhe pelas guias do vinho.

Nesse tempo, só se podia entrar nas cidades com guias de trânsito de alimentos.

O Senhor Armando confessou que não tinha papéis.

Ripostou o guarda-fiscal:

"Então, não passa!"

O Senhor Armando não se intimidou:

"Ai, isso é que passa!".

E, entre o "passa", "não passa", o Senhor Armando meteu o garrafão à boca e não parou enquanto não o esvaziou.

O guarda-fiscal só arregalava os olhos.

No fim, o Senhor Armando, um pouco cambaleante é certo, ajeitou o casaco para recuperar a sua dignidade de cidadão e enfrentou o guarda:

"Vê como passou?"

A terceira cena fotografa o Senhor Armando já um pouco decrépito, na festa do Senhor dos Passos.

Encostado à parede do campo que é hoje da paróquia, em frente a nossa casa.

Trazia pelos ombros um lenço de merino e pendurado ao pescoço um grande cordão de ouro. Numa das mãos, uma mala de senhora.

"Bom dia, Senhor Armando!" – cumprimentei.

Piscou o olho e explicou o luxo. Tinha oferecido a uma das filhas o lenço, o cordão de ouro e a mala e acabava de confiscar o presente por suposto mau comportamento da rapariga.

Um dos últimos flashes encontra o Senhor Armando na Igreja, num domingo à tarde, na "hora de adoração".

Cantava-se o "Tantum ergo".

O Senhor Armando também acompanhava mas, da garganta, castigada por muitos anos de verde tinto, só saía ar.

Devotamente, o Senhor Armando mexia os lábios, assumia o sopro que não a voz, e encolhia os ombros, como quem diz:

"Cada um faz o que pode!".

 

 

Tio Zé

música: Lili marlene - Wehrmacht, Marlene Dietrich, Bavarian Singers
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Sábado, 27 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo - IX

Uma comunhão solene há sessenta anos
 
A comunhão solene era um verdadeiro rito de passagem.
Os miúdos tinham feito a terceira ou a quarta classe (a quarta não era obrigatória) e preparavam-se para o ofício ou para assumirem, a tempo inteiro, as tarefas agrícolas ou domésticas que conheciam de tenra idade.
A comunhão solene era o momento da largada.
Realizava-se no verão, de dois em dois anos, e obedecia a cânones bem estabelecidos.
Um mês antes, começavam os ensaios, comummente conhecidos por "cerimónias".
As catequistas davam as últimas ensaboadelas, recuperavam os relapsos e mandavam recados aos pais.
Os "enorminhos" (atrasados mentais) não faziam a comunhão. Um ou outro candidato sem aproveitamento era "adiado" para a comunhão solene seguinte.
As "cerimónias" decorriam ao fim da tarde e eram momentos inesquecíveis.
Padre Zé oscilava entre a bonomia e o ralhete.
Normalmente estava de bom humor e falava do mundo. Contava o que os franceses pensavam de Portugal (ele sabia, pois tinha falado, no Porto, com um grupo de franceses) até à razão de ser do nome do mar mediterrâneo.
Se queria pôr em destaque uma ideia, fazia uma citação em latim. Mas, logo adiantava:
"Não estais a perceber nada, pois não?"
Raramente fazia perguntas sobre "doutrina", o que punha os comungantes à vontade, depois das ameaças que as catequistas tinham feito sobre o rigor e o grau de exigência do Senhor Abade.
Era normal uma ou outra resposta descabida e a ocorrência de trapalhadas. Quando as coisas descambavam com graça, Padre Zé mancomunava-se facilmente com os perturbadores da ordem, para escândalo e desespero das beatas.
As "cerimónias" eram fiéis à tradição.
Primeiramente, testava-se a voz dos oradores e o ouvido dos solistas.
Depois, iniciavam-se os ensaios propriamente ditos.
Padre Zé postava-se junto aos "oradores", com o texto na mão, e corrigia a dicção, a pontuação, o olhar e os gestos.
No caso dos cantores, tirava o lamiré do bolso da batina, dava o tom e abanava, pessimista, com a cabeça quando o solista era duro de ouvido. Se estava perante um dotado, Padre Zé não resistia a acompanhá-lo, em segunda voz, com um sorriso de satisfação.
Padre Zé tinha sentido prático e guardava os conteúdos de uns anos para os outros.
"As pombinhas da seara" era o título de uma melodia ingénua que normalmente constava do programa.
No entanto, o verdadeiro calcanhar de Aquiles das "cerimónias" eram as cenas dos "perdões". Não havendo a responsabilidade do dia da festa nem estando presentes todos os protagonistas, a canalha aproveitava-se.
Havia quatro "perdões": aos companheiros (as crianças umas às outras), ao povo, aos pais e padrinhos e ao pároco.
No "perdão aos companheiros", os comungantes formavam duas alas, orientadas no sentido do altar-mor, e, quando Padre Zé dava uma palmada, viravam-se uns para os outros. À segunda palmada, cada um avançava um pouco, punha as mãos sobre os ombros do colega que estava à sua frente e dizia:
"Perdão companheiro!".
Ora, os mais malandros não perdiam a oportunidade. Olhavam de soslaio para ver se a catequista estava alerta e, com as mãos sobre os ombros do "companheiro", mandavam uma canelada ao desgraçado que gemia quando não mesmo se atirava para o chão.
O "perdão ao povo" resumia-se a um curto discurso.
Ensaiava-se, depois, o "perdão aos pais e padrinhos" e "o perdão ao pároco".
Padre Zé sentava-se num cadeirão, colocado no transepto, e cada criança aproximava‑se, ajoelhava-se e pedia:
"Perdão e bênção!".
O guião estabelecia que Padre Zé estendesse a mão para que a criança a beijasse mas… ensaio era ensaio. Padre Zé ria-se, fazia comentários, esfregava carinhosamente a cabeça do puto ou dava-lhe uma estalada leve e amiga.
As beatas suspiravam, como quem diz:
"Assim não vamos a lado nenhum!".
Vinha o dia da festa.
Padre Zé conhecia a comunidade e interpretava as situações com sabedoria e simplicidade.
Havia duas missas. A primeira, às sete e meia/oito horas, em que se ministrava a comunhão; a segunda ("missa de festa"), às dez/onze horas.
Padre Zé explicava as razões desta dualidade.
A primeira razão era que os miúdos, particularmente os anjinhos, não podiam estar em jejum até muito tarde. Por isso, terminada a missa da manhã, deslocavam‑se, em cortejo, até à residência paroquial, em cujos acessos era servido o pequeno‑almoço.
A segunda razão era que, se a criançada fosse deixada à solta até à hora da "missa de festa", o mais certo era aparecer com os vestidos, as camisas e as asas infestados de nódoas de vinho.
A missa de festa era longa, cantada em latim e aparatosa (três celebrantes, o pregador, o mestre de cerimónias, o turibulário, o sacristão e acompanhamento a grande instrumental).
O sermão e os discursos tinham a retórica daqueles tempos.
No perdão aos pais e padrinhos, era recorrente o tema da orfandade porque, entre cinquenta ou sessenta crianças, havia uma ou outra que tinham perdido os pais. O pregador apelava o mais que podia à emoção dos presentes. Enquanto os pais e os padrinhos desciam pelo centro da igreja para beijarem os seus comungantes, a banda de música executava, e repetia as vezes que fosse preciso, o "largo" de Haendel.
O povo chorava convulsivamente.
De tal maneira, que Padre Zé, a certa altura, tinha de pedir, compungido, que enxugassem as lágrimas.
Quando estava presente, Padre Firmino era mais incisivo:
"Acabai com o berreiro para passarmos ao perdão seguinte!".
À tarde, era a procissão.
Os fatos, os vestidos e as indumentárias tinham sido aliviados de uma ou outra nódoa, as opas e os estandartes estavam no seu sítio, a banda de música a postos e a estrada sinalizada com verdes.
Saia a procissão.
Os comungantes formavam uma fila que avançava lentamente junto a cada uma das bermas.
Os anjinhos deviam ocupar o centro. "Deviam", porque residia aqui um dos quebra-cabeças da organização: manter os anjos no centro da estrada. Pela sua pouca idade, por distracção ou porque os parentes chamavam por eles, os anjos pareciam ter horror à linha recta. Tendiam para a ordem dispersa e exasperavam quem mandava, não obstante haver catequistas por perto para responder a qualquer urgência.
A procissão ia até ao cruzeiro das Portelas e regressava.
Quando recolhia, os comungantes entristeciam-se porque estava a chegar ao fim "o dia mais feliz das suas vidas".
É o que lhes tinha assegurado o pregador, no sermão da manhã, a propósito da vida de Napoleão (todos os pregadores utilizavam este exemplo) e da resposta que este dera quando lhe tinham perguntado qual o dia mais feliz da sua vida: o do ingresso na escola?... o do primeiro dinheiro?...o da vitória em Austerlitz…o….(o número de hipóteses dependia dos minutos que era necessário entreter).
A resposta do indómito general que o pregador, após uma pausa, proclamava com ênfase e que todos conheciam de comunhões anteriores (em Lagares ou fora) era:
"O dia da minha comunhão solene!"
Chegava a hora da alocução final.
Padre Zé dava os parabéns a todos, comentava uma ou outra fífia sem importância e não recusava uma piada a um apontamento que a merecesse. De seguida, tomava um ar grave para falar do futuro dos comungantes: da vida, da morte e da graça.
Era neste ponto que Padre Zé recordava que, daquele grupo de comungantes, o Senhor viria provavelmente buscar alguém.
E era verdade. As taxas de mortalidade infantil eram muito elevadas e sempre acontecia que, antes da puberdade, um ou outro partia.
Devo confessar que este epílogo da festa me arrepiava.
E que, quando foi a minha vez, não me esqueci de pedir a Deus Nosso Senhor que Se lembrasse de mim.
O que quer dizer: que não Se lembrasse de mim…
 
 
Tio Zé
música: Otche Nash, The Great Voices of Bulgaria
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Sexta-feira, 19 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo - VIII

 
EU, HERÓI
 
 
 Em 1975, no ciclo quente da Revolução, fui parar a Lisboa e vivi situações espantosas de um tempo sem regras nem leis nem necessidade delas.
Mas a história não é essa.
Uns meses mais tarde, o Ministro Almeida Santos presidia a uma reunião em que se encontrava também o Procurador-Geral da República, Conselheiro Pinheiro Farinha, e cerca de duas dúzias de magistrados.
Depois de uma tarde de discussões, com algumas ideias e muitas teses estapafúrdias, o Ministro deu os trabalhos por encerrados e virou-se para mim (que me acabava de conhecer) com uma ordem que, como é seu timbre, parecia um pedido:
"Gostaria de o ver no meu gabinete amanhã às 9 horas".
Fiquei perplexo e lá fui.
Comunicou-me que, a partir daquele dia, passaria a trabalhar com ele na reforma do sistema judicial. Balbuciei desculpas esfarrapadas, argumentei que morava no Porto, protestei que havia outros melhor posicionados, rematei que nem sequer tinha posto o problema ao Procurador-Geral da República.
De nada valeu. Foi o começo de uma colaboração de que guardo grata memória.
O Dr. Almeida Santos preocupava-se constantemente com o facto de eu não exigir, não pedir nem aceitar nada.
Uma bela manhã chamou-me, meteu-me um bilhete de avião na mão e disse-me:
"Você anda cansado, é um especialista na matéria (o que era pura fantasia!) e é um favor que me faz deslocar-se a Estocolmo para participar neste congresso sobre a pena de morte.
E lá fui eu, com duas mudas de roupa que tinha trazido do Porto e a indicação de que o Embaixador em Estocolmo me adiantaria as ajudas de custo.
O pior foi quando vi o buraco em que me tinha metido.
Nessa altura, a Suécia era o refúgio de tudo o que era exilado político e o grande patrono dos mais variados movimentos emancipalistas.
Todos os grandes, da Líbia, ao Sara, à Palestina e ao Curdistão, estavam lá.
No almoço do primeiro dia, tive a sorte (assim me parecia) de ficar sentado em frente de um espanhol.
Apresentámo-nos, ele pediu-me para eu repetir o meu nome e quando retribui a cortesia, apontou solenemente para o peito onde tinha uma tarjeta que dizia:
Sanchez (penso que era este o seu nome).
E em subtítulo: "Condenado dos veces a muerte por Franco!"
Fiz um ar de espanto e ele perguntou, curioso:
"E tu, camarada?".
Ora, eu…que podia dizer?
Disse a verdade. Que era um simples técnico de leis, apanhado à má fila e sem saber ao que vinha…
O espanhol olhou-me de cima para baixo, de baixo para cima, sorriu com cepticismo e incredulidade, meneou lentamente a cabeça e, com ar de profundo respeito e admiração, observou, pontuando cada palavra:
"Comprendo-te, camarada! Non quieres hablar de tus hechos!
E, nos restantes dias do congresso, quando nos cruzávamos, curvava-se respeitosamente e saudava-me, com a veneração com que se homenageia o soldado desconhecido.
            
Tio Zé
música: Soledad Bravo - Hasta siempre Comandante Che Guevara
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Sábado, 13 de Maio de 2006

O elefante-bombeiro

 
"No circo que, há alguns anos, esteve instalado à beira do Rio Tejo, trabalhava um casal de elefantes, nascido na Rússia e, várias vezes, premiado, por constituir o melhor par de artistas da Europa.
Os dois elefantes eram, de facto, muito inteligentes e sabidos.
Dançavam, tocavam saxofone com a tromba, punham-se de pé assentes nas patas traseiras e marchavam à frente da família de elefantes e de outros animais amestrados: leões, ursos, cavalos, gazelas, camelos, girafas e cães.
Aconteceu que a mãe elefante estava de bebé e, ao vigésimo mês, (as elefantes estão à espera de bebé vinte e dois meses) pediu licença de parto, isto é que a dispensassem do serviço, coisa que deviam poder fazer todas as mães que têm um trabalho duro e precisam de descansar para que os filhos nasçam de boa saúde.
Foi substituída por outra elefanta também muito considerada.
Para surpresa da aldeia do circo, que não esperava tanta filharada (normalmente, uma elefante tem apenas um ou dois filhotes), dois meses mais tarde a elefante-mãe teve três bebés, todos fortes e lindos e, como se veria dentro de pouco tempo, muito espertos.
O dono do circo tranquilizou imediatamente a família-elefante.
Ficava com todos.
Se saíssem aos pais, como se esperava, os elefantes-bébé seriam bem comportados, estudiosos e trabalhadores e teriam o dom da arte, isto é, teriam jeito para fazer ginástica, para a dança, para a música e, também, para as brincadeiras de que tanto gostam os meninos que vão ao circo.
Quando atingiram a idade de cinco anos (o que equivale à idade de um rapaz ou de uma rapariga de vinte), chegou a altura de escolherem profissão.
O primeiro elefante-bébé , chamado Bambi, quis continuar no circo.
Já se tinha habituado, era estimado por todos e tinha-se afeiçoado aos meninos que o iam visitar. Pensava também que era necessário algum dos filhos ficar perto dos pais para os poder acompanhar quando fossem mais velhos.
O segundo elefante-bébé, a que deram o nome de Paqui, tinha outros projectos.
Cismou que lhe calharia melhor uma profissão fora do circo. Sentia-se especialmente atraído para uma ocupação em que pudesse contactar com muita gente, especialmente estrangeiros, em que não tivesse de fazer ensaios com outros animais (há-os com muito mau feitio) e em que não trabalhasse de noite. Os espectáculos do circo a altas horas, como acontece muitas vezes, cansavam-no e as luzes dos projectores feriam-lhe os olhos.
Ora, Paqui soube, pelos jornais, que o Jardim Zoológico de Lisboa precisava de um ajudante de tocador de sineta para apoiar o elefante que tem a seu cargo esta função.
Como sabem, no Jardim Zoológico de Lisboa, existe um elefante que toca uma sineta, desde que se lhe dê uma moeda de cinquenta cêntimos. Os meninos atiram a moeda ao elefante, ele apanha a moeda com a tromba e coloca-a dentro de uma caixa. Em seguida, toca a sineta, que é uma forma de dizer que recebeu o dinheiro ou, se quiserem, de entregar o recibo a quem pagou.
O dinheiro assim obtido chega para sustentar a família‑elefante e ainda alguns amigos, especialmente os chimpazés africanos que moram na casa ao lado e não têm vocação para este tipo de coisas. Preferem andar de balouço, jogar ao esconde-esconde e fazer piruetas, o que diverte crianças e adultos.
Paqui foi aceite, passou a trabalhar com o elefante tocador de sineta e, de tal modo se mostrou competente, que, dois meses depois, já partilhava o trabalho com o mais velho: um estava de serviço de manhã; o outro de tarde.
Restava o terceiro elefante-bebé, de seu nome Fiúza.
Com este, foi diferente.
Uma bela manhã, pediu para falar com os pais e comunicou-lhes que adorava a família e os amigos mas que tinha decidido correr mundo. Não sabia exactamente que profissão escolher mas, à medida que fosse conhecendo países, cidades, vilas e aldeias, iria formando a sua opinião sobre o que o tornaria mais feliz.
Garantiu, no entanto, que nunca se esqueceria da família e do circo e que, nas férias, os visitaria.
"Não fiquem com saudades que o longe se faz perto!" - acrescentou –, querendo dizer que quem verdadeiramente deseja uma coisa consegue-a, demais a mais, na actualidade, em que a rapidez dos transportes permite, em pouco tempo, viajar de um país ou de uma cidade distantes.
Os elefantes-pais gostaram de ver um filho com tanta personalidade, ou, por outras palavras, um filho que sabia tão bem o que queria fazer como adulto.
Prepararam-lhe uma mochila, com o necessário para os primeiros tempos e despediram-se, com uma lágrima no olho.
Fiúza pôs a mochila às costas e partiu à aventura.
Conseguiu sobreviver com facilidade porque tinha aprendido tudo o que os professores lhe tinham ensinado.
Viajou durante meses.
Trabalhou em circos de província, em pequenos jardins zoológicos que queriam imitar o de Lisboa ou, pura e simplesmente, fazendo habilidades na praça principal das cidades ou à porta das escolas.
Quando passou pelo Porto, estava-se em pleno verão e fazia muito calor.
Os incêndios eram permanentes.
De facto, não chovia há muito tempo e as árvores e o mato estavam ressequidos.
Mas os incêndios resultavam, sobretudo, da falta de cuidado das pessoas que não limpavam os montes, deitavam pontas de cigarro para o chão ou acendiam fogueiras para fazerem cozinhados ao ar livre, sabendo que é uma coisa perigosa e proibida no verão.
Ia Fiúza pela beira da estrada quando ouviu um barulho esquisito e, logo a seguir, passou, em grande velocidade, um carro dos bombeiros chamado, a toda a pressa, para apagar um incêndio.
Fiúza verificou que o carro dos bombeiros era uma espécie de cisterna e arrebitou as orelhas (vocês sabem que os elefantes têm umas orelhas enormes!), como a dizer:
"Olha que ideia me veio à cabeça!".
Confirmou, uns segundos depois, que a sirene do carro dos bombeiros era fanhosa e não se ouvia em boas condições. Ele mesmo só se tinha apercebido da aproximação do carro a curta distância.
Ao mesmo tempo que reflectia sobre estas coisas, Fiúza voltou a arrebitar as orelhas (que, agora, pareciam dois abanos) e disse para os seus botões:
"Eu fazia melhor!".
E, se bem o pensou, melhor o fez.
Passava numa terra em que havia uma tabuleta que dizia "Paço de Sousa" que era exactamente o nome que estava escrito, em grandes letras, no carro de bombeiros que tinha acabado de passar. Perguntou a um cão (por acaso, primo do "Puschy") que atravessava a estrada depois de olhar para o lado direito e para o lado esquerdo a ver se havia trânsito:
"Podes dizer-me onde moram os bombeiros, amigo cão?"
O cão explicou, explicou e terminou com dois hau, haus que significavam:
"Não há que enganar!...".
Chegado ao quartel, que é a casa onde se guardam os carros, as fardas e os materiais e onde os bombeiros se reúnem (alguns até dormem aí para poderem socorrer casos urgentes), Fiúza bateu à porta.
Quando lha abriram, anunciou, com uns modos delicados:
"Bom dia, Senhor bombeiro! Seria possível pôr-me em contacto com o Senhor Comandante?".
O comandante dos bombeiros apareceu imediatamente por detrás do bombeiro que tinha aberto a porta.
Era um homem alto, de grandes barbas brancas. Vestia uma farda azul, tinha várias medalhas penduradas ao peito e usava, na cabeça, um bonito capacete amarelo‑dourado.
"Um elefante por aqui?" – pareceu admirar-se.
"Desculpe incomodá-lo, Senhor Comandante. Precisava de lhe falar. É que acabei os meus estudos, trabalhei à experiência em vários sítios e sou agora um elefante à procura de emprego. Poderia atender-me?" – disse Fiúza.
O comandante dos bombeiros foi muito simpático. Ouviu-o, pediu-lhe pormenores sobre as ideias que tinha para o trabalho dos bombeiros e, depois de passar as mãos pelas barbas, respondeu, com voz calma e grossa:
"Sim senhor, pareces um elefante atilado e tens ideias muito interessantes…Estávamos mesmo necessitados de alguém, como tu, que tivesse projectos e nos ajudasse a socorrer tanta gente que, este ano, com os fogos, tem perdido casas, árvores e animais. Ficas contratado e passas a trabalhar já amanhã, pois, se não chover ou as pessoas não ganharem juízo, os incêndios vão continuar.
No quartel, aproveitaram o resto do dia para fazerem a farda para o novo bombeiro. Ocuparam‑se, neste trabalho, um alfaiate e três costureiras. Não se admirem se eu lhes disser que foram gastos trinta e três metros de tecido azul, trezentos e setenta botões e quatro carrinhos de linha.
Vestida a farda, Fiúza foi apresentado a todos os bombeiros, alinhados na parada. A parada é um campo, por detrás do quartel, onde os bombeiros marcham, fazem exercícios parecidos com os dos militares e treinam acções de protecção, salvamento e ataque a incêndios.
Quando o comandante chamou "Bombeiro Fiúza!", Fiúza respondeu "Pronto!", o que, em linguagem militar, é o mesmo que "Estou aqui para o que for necessário!") e levantou a pata direita da frente e a tromba, em sinal de continência.
Estava feita a apresentação.
No dia seguinte, à hora do almoço, os bombeiros tiveram que partir para um grande incêndio que lavrava… sabem onde?...Em Lagares.
O comandante dos bombeiros já tinha dado as suas ordens. Se houvesse um incêndio importante, sairia o carro dos bombeiros e o atrelado.
Explico já porque é que o comandante falou no atrelado.
É que Fiúza era, a partir desse dia, um elefante-bombeiro. Por motivos compreensíveis, resultantes da sua estatura, do seu peso e de lhe ter sido confiada uma tarefa muito especial, teria de viajar num atrelado.
Foi um sucesso nunca visto.
Adivinham porquê?
É que o elefante-bombeiro (tratavam-no agora por bombeiro Fiúza) ajudava a apagar os incêndios, tirando água do carro-cisterna, com a tromba, e lançando-a para cima do fogo.
Ainda mais difícil, (olhem que foi a primeira vez que, em todo o mundo, os bombeiros utilizaram tal ideia) o elefante-bombeiro roncava, antes das curvas e nos lugares povoados, (Yhóooooh!, Yhóooooh!…) produzindo um som mais poderoso que o da antiga sirene e, assim, avisando quem passava da aproximação do carro dos bombeiros.
Foi este som que Catarina e Bibi ouviram e que inicialmente as amedrontou".
"Mas a história não acaba aqui.
O elefante-bombeiro acabou por saber do medo de Catarina e Bibi.
Nas terras pequenas, sabe-se tudo…
Achou piada e riu-se a bom rir, dizendo:
"Lindas meninas, ah, ah, ah! Como puderam ter medo de mim que sou tão amigo de crianças?... Quando for a Lagares, ou mesmo a Lisboa, vou visitá-las e fazer-lhes uma festinha com a tromba"".
Yhóooooh!, Yhóooooh!...ah,ah,ah!...

 
 
Autor: Tio Zé
Ilustração e narração: Guri Guri
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Crónicas do Luxemburgo VII

O elefante-bombeiro
    
     
Minha mulher quis saber de que histórias as nossas netas gostavam mais.
Catarina não teve papas na língua:
"Tu lês melhor que o Zézé. Agora, há uma diferença: o Zézé conta coisas que realmente aconteceram!".
Mas Catarina e Bibi vão-me conhecendo as manhas.
Catarina contorna o problema da verdade. Vai-lhe faltando a fé mas quer continuar a acreditar.
Bibi prefere conhecer previamente as regras do jogo. Se inicio uma história com "Quando o Zézé era pequeno…", ela, sabendo do que a casa gasta, interrompe e atalha:
"Não quero histórias de quando eras pequeno, quero histórias imaginadas!".
Esta questão é melindrosa e data do verão passado.
Estávamos em Lagares e os incêndios sucediam-se. As sirenes das viaturas dos bombeiros eram constantes e, a dado momento, passou um carro que emitia um som que parecia uma "ronca".
Elas assustaram-se e eu tranquilizei-as:
"São os bombeiros de Paço de Sousa, os mesmos que vocês têm visto por aqui. A novidade é que, hoje, trouxeram o elefante-bombeiro".
Ficaram intrigadas.
O "elefante-bombeiro"?!...
Prontifiquei-me a contar a história do elefante-bombeiro.
No fim, Catarina tirou satisfações:
"Desculpa lá, Zézé. Desta vez, exageraste! Não haverá, nessa história, muita imaginação?"
Fiquei encafuado.
Respondi que o que tinha contado tinha um fundo de verdade…Mas que todas as histórias estão misturadas com alguma dose de imaginação…
Não pareceu muito convencida.
Valeu-me Bibi que, com uma compreensão malandra e doce, comentou:
"Mentiroso lindo!".
Pois vou repetir a história do elefante-bombeiro para os meus netos (incluindo o Nunocas, azeitonas nos olhos, olhar reguila e autêntica máquina de mamar) sobrinhos-netos e amigos da mesma geração (deles).
Quanto ao problema da verdade, tire cada um as suas conclusões.
Tio Zé
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Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo VI

Retrato de um líder
 
 
Zé Galinha era um activista.
Prestável, comunicativo, estava em todos os acontecimentos que mobilizavam a freguesia.
Se um acidentado necessitava de uma prótese, a vaca de um pobre morria de parto ou um desgraçado carecia de funeral, Zé Galinha encontrava-se incondicionalmente à frente do peditório.
Tinha herdado do pai, Manel Galinha,[1] o ofício: primeiramente, tangedor de gado, depois, condutor das malas do correio.
Era gago profundo e filósofo assumido.
Numa certa altura (estava em cena "A rosa do adro"), o grupo de teatro esteve em risco de dissolução por desavenças sobre a gestão dos dinheiros.
Zé Galinha tomou a direcção nas suas mãos e a imagem da administração alterou-se radicalmente.
A cada espectáculo passou a seguir-se uma ceia, por vezes alargada a familiares e amigos: caldo verde, broa e bacalhau, à discrição, tudo regado com tinto da quinta de D. Francisco.
Nem no Natal!...
Quando, algum tempo depois, um dos actores mais coca-bichinhos (que os há sempre) interpelou o "director" sobre os "apuros" da bilheteira, Zé Galinha, de dedo em riste para a barriga proeminente do recalcitrante, disparou:
"As ©ontas (e)stão (b)em (v)ísíveis…"
Zé Galinha não era dado a humores depressivos.
Uma manhã, porém, acordou taciturno e mudo.
O facto não escapou à Tia Augusta.
"Andas doente ou morreu-te alguém?" –  indagou.
Zé Galinha respondeu, com ar abatido:
"Es(t)ou (d)esen(g)anado (p)ela (m)e(d)icina…".
Propagou-se rapidamente, por tudo quando era sítio, que Zé Galinha padecia de "mal ruim".
Aconteceu que, no dia seguinte, a jovialidade e a boa disposição pareciam ter regressado, o que intrigou a vizinhança.
Abordado cautelosamente sobre o seu real estado de saúde, Zé Galinha explicou:
"(M)al ®uim, eu? Eu (s)ó (d)isse (q)ue es(t)ava (d)esen(g)anado (p)ela (m)edicina. (V)oce(m)ecê (s)abe (d)e (a)l(g)uém (q)ue (t)enha (f)icado ©á (p)ara a (s)emente, (m)ulher? O (n)osso (l)ugar é a(l)i!…(apontava para o cemitério). En(t)ão, (t)odos es(t)amos (d)esen(g)anados (p)ela (m)edicina, (n)ão é?!…"
Já entrado na idade, a asma ia-se agravando e, mês sim mês não, era levado de urgência ao hospital.
Comentava, a este propósito:
"(H)á (g)ente (q)ue se (a)rrepia ©om o (d)obrar a (d)e(f)unto. A (m)im n()ão (me) (f)az (d)i(f)erença (n)enhu(m)a. (S)ei (q)ue não é (p)or (m)inha (c)ausa!... O (q)ue me a©agaça é a (s)irene dos (b)ombeiros (q)ue já al(g)u(m)as (v)ezes me (v)ieram (b)uscar!…".
Nos anos que se seguiram à segunda grande guerra, Lagares acusava sinais desse tempo de provação. O povo saia muito lentamente da miséria extrema. A energia eléctrica ainda vinha a caminho embora já houvesse um ou outro rádio a pilhas. Os relatos dos jogos de futebol eram das coisas mais excitantes que chegavam de fora.
Não tardou que o futebol passasse a motivar o dia a dia dos mais novos.
Adriano pertencia à geração de Zé Galinha. Trabalhador e afável, era fisicamente deficiente. Usava duas grandes muletas e deslocava-se com dificuldade. Aos domingos, finda a missa do dia, formava-se uma tertúlia à roda da sua banca de sapateiro e falava-se de tudo. Era também à sua volta que se congraçava o fervor pelo Sporting.
Disputaram-se, nessa altura, partidas renhidíssimas.
Nas tardes de domingo, as pessoas juntavam-se nas Portelas, cruzamento da estrada nacional, o que significava, naquele tempo, porta do mundo.
Os primeiros treinos fizeram-se ali, em plena estrada.
Duas pedras a servir de baliza e um olho nos troços que ligavam, em cada sentido, à ponte de Lagares e a Escariz; não tanto pelo trânsito, que era muito reduzido, mas porque podia aparecer a Guarda ou o cantoneiro que, à sorrelfa, confiscariam a bola.
Adriano jogava, apesar da sua deficiência. Era guarda-redes e ninguém ousava pôr em causa a sua eficácia. Se um adversário se aproximava, Adriano lançava-se…melhor, largava as muletas e caía desamparado. Umas vezes agarrava a bola com as mãos, outras salvava a baliza porque bola e adversário tropeçavam nele ou nas muletas.
Mais tarde, o futebol "institucionalizou-se" sob o mecenato do Senhor Soares.
Fidelizou-se a ligação ao Sporting e improvisou-se o "estádio", no maninho da Igreja.
O "campo da bola" tinha dimensões muito abaixo das mínimas e era inacessível. Situava-se no cimo de um monte escarpado e liso pois a necessidade não poupava árvore ou arbusto que pudesse abastecer a lareira.
Os jogos prolongavam-se pela tarde fora. Um pontapé mais potente desferido para o lado do ribeiro fazia a bola saltitar até ao vale e, como normalmente só havia uma, eram necessários uns bons vinte minutos para a recuperar.
Num ou noutro jogo mais importante, contratava-se uma estrela.
Armando, ex-guarda‑redes do Salgueiros, era idolatrado. Já perto dos quarenta, equipado à maneira (camisola e calções cerzidos e desbotados, reminiscentes da glória de outros tempos) e cabelo untado de brilhantina, Armando não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Salvo nos casos em que lhe faltava tempo de reacção, selava cada defesa com uma cambalhota.
O povo desfazia-se em palmas, mesmo quando a bola tinha atravessado a linha de golo, o que era mais que frequente.
O club entrou, numa determinada época, em declínio e Zé Galinha, porque ninguém mais avançou, aceitou a liderança.
Bem depressa confirmou a sua têmpera.
Num dos primeiros jogos, os da Sobreira tinham arranjando um árbitro que saiu melhor que a encomenda. No intervalo, o jogo já se saldava por três a zero contra o Sporting Club de Lagares.
Zé Galinha não tolerou a infâmia. Deixou recomeçar o jogo para que fosse publicamente reconhecida a sua autoridade e invadiu o rectângulo, com esta ordem de dispersão para os de Lagares:
"©a(r)ago, p'ó ©a(r)ago, (H)omens em ©am(p)o, ©asa!".
E o jogo terminou imediatamente.
Desde então, enquanto não se lhe mostraram mais transparentes os mecanismos da arbitragem, Zé Galinha punha uma condição para que a equipa alinhasse: ser ele próprio o árbitro.
Mais tarde, os horizontes desportivos alargaram-se e Zé Galinha tornou-se sócio indefectível do Penafiel.
Assistia a todos os jogos, acompanhava a equipa e passava a semana seguinte a relatar os fait-divers e a jurar a sua fé inabalável nos próximos lances.
Filosofava para os mais próximos:
"Se (m)e (s)air a (l)otaria, o (q)ue es(p)ero, ©arago, (r)e(p)arto a (m)assa: uma (p)arte (p)ara a (S)anta ©asa da (M)isericórdia, outra (p)arte (p)ara a ©onstrução do es(t)ádio do (P)ena(f)iel e outra (p)ara eu (f)azer uma ©asinha em (f)rente do es(t)ádio do (P)ena(f)iel".
Ficou-lhe gravado na memória aquele jogo Felgueiras/Penafiel.
Não fora só a derrota. Fora a ladroagem do árbitro e a má criação dos de Felgueiras. Estivera a chegar a vias de facto com um adepto do Felgueiras que insultara Penafiel, aludindo a uma velha alegoria das terras de Arrifana:
"Na vossa terra, só há albardas e burros, ó palerma!".
A partir daí, estava o campeonato ainda no início, Zé Galinha já só pensava na segunda volta.
E o dia chegou.
Chovia em Penafiel e o jogo estava a correr menos mal.
Mas Zé Galinha não tinha olhos para o jogo. Ia e vinha e circundava o campo, de frente para a assistência, a ver se descobria o indivíduo que o agravara em Felgueiras.
Já desanimava quando, enfim, a sorte lhe sorriu.
"(F)altavam ©inco (m)inutos (p)ara o (f)inal da (p)ar(t)ida, ©arago! Não é (q)ue o sa©ana se (t)inha a(n)i(nha)ado atrás da (b)aliza do (P)enafiel, com o (g)uarda‑chuva a (t)apar‑lhe as (f)uças?! (C)omo é (q)ue eu (p)odia (a)divinhar, (p)orra?!".
E Zé Galinha acrescentava:
"Eu (s)ou um (h)omem de (P)ena(f)iel, ©arago! Não (p)erdi a ©alma (n)em a (e)du©ação! (P)er(g)un(t)ei: "Ò (a)migo, ©omo es(t)á o ®esul(t)ado?"..."
E antes que o outro tivesse tempo de responder ou sequer de reconhecer o recém-chegado, Zé Galinha sacou-lhe o guarda-chuva e desfê-lo na cabeça do meliante.
"Em(p)atámos, (m)as, (n)essa (t)arde, (d)ei (u)ma (g)rande (a)legria ao (P)ena(f)iel, (c)arago!" - concluía Zé Galinha.
 
Tio Zé
   

[1] Outro tipo inesquecível que retratarei mais tarde.
música: Mammas & the Pappas: California dreamin'; Monday, monday
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Terça-feira, 2 de Maio de 2006

Crónicas do Luxemburgo V

Outro suave milagre

                                  

Padre Zé celebrava invariavelmente muito cedo.

Durante a semana, a missa era às seis da manhã. Noite fechada, no Inverno.

A frequência não era grande: uma a duas dúzias de fiéis. Ocupavam os lugares do costume e respeitavam uma geografia irreversível: à frente os homens, no meio as mulheres e as crianças e, no coro outra vez os homens.

Excepcionalmente, havia um gasómetro. No altar-mor, ardiam duas velas, a que eventualmente se juntavam outras, colocadas por devotos em altar de santo a quem tinham pedido intercessão ou deviam favor. Uma ou outra candeia a petróleo que tinha ajudado a desvendar os trilhos que conduziam à igreja mantinha-se acesa.

Mas o ambiente era de semi-escuridão.

O vento entrava pelas frestas das portas e fazia dançar as chamas dos gasómetros e das velas, produzindo efeitos estranhos nas paredes da igreja, com silhuetas e movimentos de pessoas a recortarem-se em espaços de luz e de sombra.

O Vaticano II ainda estava distante.

O sacerdote celebrava em latim, de costas para a assistência.

Por vezes, quem ajudava à missa era o Faustino, rapaz de uns nove ou dez anos, tão ladino quanto gago. Tinha decorado as respostas mas corrompia o latim, comendo metade das palavras e eliminando outras, com o louvável propósito de terminar o que lhe competia a tempo de não perturbar o bom andamento da missa. No fim de cada resposta, pontuava a palavra final e inclinava levemente a cabeça, o que o celebrante interpretava como "deixa" para prosseguir.

Aparentemente indiferente ao que se passava no altar-mor, a Senhora Anastácia, decana das catequistas, rezava e entoava ininterruptamente toda a sorte de melopeias. Terços, ladainhas, jaculatórias ou simplesmente passagens de livros de aparência suja e corroída pelo tempo, tudo lhe servia. Segundo a liturgia do dia (real ou imaginada), as leituras podiam ir da paixão de Cristo à vida prodigiosa de uma virgem e mártir.

Entre o celebrante e a Senhora Anastácia tinha-se estabelecido uma espécie de coexistência que só se desfazia nos momentos cruciais da missa, em que as rezas e as leituras eram suspensas.

Nas primeiras sextas-feiras era diferente.

Havia mais gente, as crianças que tinham feito a primeira comunhão compareciam e as cantoras aprimoravam-se com duas ou três intervenções em latim (O salutaris hostia, Ave verum e Tantum ergo) e, depois, cânticos em português, a duas vozes e ritmo arrastado, o que convidava ao recolhimento, quando não embalava no sono um ou outro assistente despertado antes do cantar do galo.

Naquele dia de semana, a igreja não se enchera mas, por uma qualquer razão, encontrava-se mais composta.

O tempo estava ventoso e húmido, o que levava a que as portas rangessem e batessem.

Normalmente, Padre Zé distribuía a comunhão terminada a missa. Se os participantes eram em grande número, o sacerdote ia avançando, pelo centro, até ao fundo da igreja. Quem queria comungar aproximava-se.

Tinha o celebrante chegado ao transepto, acompanhado do ajudante, quando sentiu que havia alguma agitação entre os fiéis.

As mulheres chegavam-se ao ouvido uma das outras e segredavam qualquer coisa que lhes transtornava visivelmente o espírito e alterava o fácies. A mensagem parecia ir alastrando, pois os homens começavam a sobressaltar-se, como logo resultava do seu olhar inquisidor e convulsionado, do cofiar do bigode e da passagem da mão pela cabeça.

Alheado e sereno, Padre Zé continuava a distribuir a comunhão.

Aquele bulício não lhe era totalmente estranho. O telhado da igreja estava em petição de miséria e, quando chovia, os fiéis resguardavam-se dos pingos, mudando atabalhoadamente de posição ou de local e criando alguma confusão. O ruído de pessoas a recuperarem os tamancos, a afastarem os "mochos" em que se sentavam e a sussurrarem lamentos e explicações era-lhe familiar.

Mas não tardou a ouvir-se um restolho desconhecido, provocado por um magote de pessoas que abandonava desabridamente a celebração.

E, a seguir, veio o alarido.

"Nosso Senhor nos acuda!", clamava a Senhora Cremilde, guardando a compostura possível.

"Jesus, Maria e José, vinde em nosso auxílio!", bradava a Senhora Deolinda, com cabelos desgrenhados e os braços erguidos para o céu.

Começavam a rarear os comungantes quando o paroxismo sobreveio.

O Senhor Valentim, homem de forte compleição mas geralmente tido por medroso, gritou, do coro, a plenos pulmões:

"Salve-se quem puder!".

E os poucos que sobravam ensaiaram a debandada em choros e gritos.

Só então Padre Zé se deu conta de que qualquer coisa de verdadeiramente anormal estava a acontecer. Virou-se para o ajudante com a intenção de lhe pedir para ir ver o que se passava. Mas este acabava de largar a opa e de saltar como um gamo por cima de um banco que lhe impedia o acesso à saída.

Ficou Padre Zé com a píxide nas mãos, sozinho, à espera que a hecatombe se declarasse ou o Espírito Santo o iluminasse de vez.

E foi o que aconteceu.

A porta do guarda-vento entreabriu-se e a penumbra deixou adivinhar a figura imponente de Manel Tirano.

Manel Tirano era da Capela.

Homem corpulento, com farta cabeleira e mãos enormes, desgastara-se no trabalho das minas. A fome, as provações e o destino tinham-no conduzido à loucura. Alarmava a vizinhança, de noite, com berros e impropérios. Era violento com quem o invectivava. E, atingido por uma epilepsia progressiva, tinha ataques, em que espumava, vociferava alusões religiosas e lançava esgares que aterrorizavam os circunstantes.

Dizia-se que eram necessários seis homens para o segurar.

O povo temia-o e murmurava à boca pequena que estava possuído pelo demónio.

O louco avançou uns passos, depôs a boina e o cajado e postou‑se a poucos metros do padre, com um olhar inexpressivo e longínquo.

Padre Zé fixou-o nos olhos e reparou que ele reagia, esboçando um sorriso.

"O que vens fazer à igreja, Manuel?" – perguntou o sacerdote.

"Quero comungar, Senhor Abade!" – replicou o louco.

Padre Zé acedeu com naturalidade:

"Vem, que eu dou-te a comunhão".

O pobre homem adiantou-se, tomou respeitosamente a hóstia e Padre Zé lembrou, com voz compreensiva e doce:

"Não deixes de dar graças ao Senhor!".

Ao voltear para entrar na sacristia, o sacerdote lançou um último olhar para o fundo da igreja e observou que Manel Tirano, ajoelhado, orava, com a maior unção, e batia com a mão no peito.

No adro, não restava vivalma.

Os mais afoitos ou curiosos tinham-se agachado por detrás do muro do passal, ansiando serem testemunhas únicas e gloriosas de uma grande desgraça.

Ficaram paralisados ao verem Manel Tirano sair da igreja.

Quando, porém, o louco se aproximou, notaram que ele não estava agitado. Ia a falar sozinho, como fazia habitualmente.

Enclausurado no seu mundo, Manuel Tirano perscrutava a linha do horizonte, continuava a rezar e prosseguia o seu caminho com a tranquilidade dos justos.

                    

Tio Zé

     

[1] A história baseia-se em factos que o Padre José Rodrigues Moreira, o querido Padre Zé de quem falarei noutras crónicas, me transmitiu. Alterei os nomes dos outros personagens.
        
          

música: Monks and Choirs of Kiev - Chants of the Russian Orthodox
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Quinta-feira, 27 de Abril de 2006

Crónicas do Luxemburgo IV

 
O diabo visita Lagares
 
  
Há mais de setenta anos, Lagares era uma terra povoada de gente (pouca), de feras (algumas) e de espíritos (bons e maus).
Numa noite de verão, regressavam das fainas agrícolas dois jornaleiros do "Serrão".
Um, tocava viola; ambos, cantavam ao desafio.
Uns passos à frente, seguia, pachorrentamente, um perdigueiro, cansado das fadigas do dia, atento aos donos e pronto para saltar à primeira ave nocturna.
Bordejavam o ribeiro quando, subitamente, ouviram um ruído tremendo de águas que se debatiam e entrechocavam.
Não tiveram tempo para reagir.
De imediato, emergia do ribeiro um monstro com mais de dois metros de altura.
Uma silhueta escura e peluda contrastava com os raios de luar.
O vulto ("bruto", na expressão popular) erguia-se nas patas traseiras, roncava e rodopiava, exibindo os dentes ameaçadores.
À vista horripilante da criatura, o perdigueiro desarvorou, com ganidos de arrepiar.
Os dois homens ficaram simplesmente especados.
Mas os sintomas não os enganavam. Enquanto os cabelos se lhes eriçavam, as cordas da viola rebentavam uma a uma e as socas soltavam-se-lhes dos pés.
Foi o tempo de apanharem as socas e de fugirem, descalços e desaustinados.
Um dos homens teve ainda sangue frio para puxar o terço do bolso e rezar, esperançoso em que o demo se atemorizasse com os bentos sinais.

Chegaram a casa com a rapidez de um raio e narraram o acontecimento, suplicando aos presentes que se juntassem às suas preces para esconjurar o maligno.
Só no dia seguinte, o patrão, homem temente a Deus mas capaz de racionalizar as coisas do mundo, convocou os jornaleiros.

Ouviu ponderadamente os pormenores e ordenou-lhes que o levassem ao sítio da aparição.
As provas estavam lá:
Peugadas enormes de bicho nunca visto. Se eram ou não do diabo, era coisa a verificar, pois a tradição retratava o "tentador" com focinho mefistofélico mas patas escanzeladas.
Decidiu o patrão consultar o sábio da aldeia, o Professor da Lapa.
Este professor, homem de grande prudência e sabedoria, que tantas vezes tinha desfeito maus presságios, veio ao local, desenhou as impressões “patais” e, já em casa, confrontou o esquisso com um atlas que possuía.
Não foi necessário muito tempo para concluir que o intruso era um urso.
À primeira, as pessoas do lugar não acreditaram. Viam na explicação "científica" uma forma de tranquilizar o povo e de exorcizar a ameaça que pairava sobre uma aldeia possuída pelo "porco sujo".
Só uma semana mais tarde, aquelas almas se aquietaram.
O "Serrão" era, naquele tempo, a única casa que assinava e lia "O Comércio do Porto".
Ora, no jornal daquele dia, ofereciam-se alvíssaras a quem informasse sobre o paradeiro do grande urso preto que tinha fugido do circo acampado no Porto, em pleno Campo 24 de Agosto, animal já avistado em diferentes lugares.
       
Tio Zé
 
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Terça-feira, 18 de Abril de 2006

Crónicas do Luxemburgo III

Nos bons velhos tempos, quando não havia televisão e a cidade ficava nos confins do mundo, as noites de Inverno eram aproveitadas para encenar histórias que as gerações transmitiam por tradição oral.

Os assuntos normalmente versados, numa comunidade de crentes pouco instruída, eram a criação do mundo, o bem e o mal, o pecado e a expiação.

Destes temas, o que mais aliciava as plateias, pelo mistério e pelo limiar tecnológico, era o Inferno.

A visão do Inferno dramatizava-se por meio de um fosso criado por baixo do palco, de onde eram catapultados os diabos através de uma alavanca constituída por uma trave apoiada num tronco. O fogo, esse, era conseguido com resina moída, soprada através de um sistema altamente "sofisticado". O latoeiro fabricava um tubo que, na ponta, curvava para cima. No topo, acoplava‑se uma espécie de raro de regador que, coberto de resina, era colocado a centímetros de uma vela acesa. Na altura própria, alguém soprava no tubo, a resina libertava-se, atravessava o lume e transformava-se em chamas.

À medida em que o "Rei dos Diabos" chamava, os diabos emergiam no palco, envoltos em fogo. Não me recordo já do nome de todos. Como em muitas seriações bíblicas, sei que eram sete.

O "Rei dos Diabos" berrava: Lúcifer, Satanás, Sataniel e por aí fora… Cachapuz era o último e mais pequeno.

Quando os diabos saltavam, havia um diálogo que aliviava a tensão e fazia rir a assistência.

"Satanás!", bradava o "Rei dos diabos". "Aqui vou eu de cabeça para a frente e rabo para trás!", retorquia o dito Satanás.

Cachapuz !", chamava o "Rei dos diabos". "Fiquei para trás para apagar a luz!", respondia o último dos diabos.

          A miudagem passava do pânico ao fascínio e, chegada a casa, queria imitar.

Dos cinco irmãos, reservámos para os três varões esta perigosa aventura escatológica.

O engenhocas era o Nando . Encarregou-se naturalmente de conceber os efeitos cénicos. Eu aceitei o papel de "Rei dos Diabos", pela importância e pouco trabalho. O Nando atribuiu-se também o papel de diabo saltante. O Marito , nos seus inocentes quatro ou cinco anos, constituía o público.

Faltava o local. Não foi difícil.

Numa espécie de sobreloja, existia a retrete. Reproduzia o que era comum nas famílias com algumas possibilidades: uma bancada de madeira, com um buraco e uma tampa, dando directamente sobre o quinteiro que ficava um ou dois metros abaixo. Os excrementos eram periodicamente misturados com mato para produzirem estrume.

Arranjámos e moemos a resina, improvisámos o tubo e o raro, acendemos a vela e preparámo-nos.

O Nando estava predestinado. Ainda pequeno, passava perfeitamente no buraco da retrete. Com o corpo e as pernas suspensos, tinha que apoiar os braços nos lados da bancada para se aguentar.

E o espectáculo começou.

Gritava eu:

Lucifer !".

E o Lucifer ", que o Nando personificava, soerguia-se, apoiado nos braços, e repetia Lucifer !", enquanto eu soprava resina para a vela e as chamas se levantavam terrificantes.

"Satanás!". A cena repetia-se…

Só não previmos que mesmo os diabos (e, sobretudo, os diabos) estão sujeitos às leis da natureza.

O Nando resistiu à primeira experiência, mas, na segunda, estava ainda o "Rei dos Diabos" a chamar pelo terceiro ou quarto diabo, quando os braços se negaram ao esforço.

Foi o desastre.

Com as pernas a balouçar e a roçar as profundas do "inferno", nem descia nem subia. E quanto mais tentava, mais descaia e tornava a situação irreversível.

Tementes das consequências e frustrados por não conseguirmos afinar a peça, chamámos o nosso pai para "desatascar" (é o termo) o actor.

Rezam as lendas que o Nando saiu da situação em mísero estado.

Foi desinfectado com uma mistura de cinza, lexívia e água quente, geralmente utilizada para as barrelas.

Depois, lavado com sabão cor de rosa.

Apesar disso, durante algum tempo, à sua aproximação, os iniciados no acontecimento cochichavam entre si, cúmplices de uma revelação que contrariava a sabedoria popular.

Afinal, o inferno não cheirava a enxofre mas a m...

 

 Tio Zé

 

"Espaço cénico" típico da época

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